O que é comunhão entre os irmãos segundo a Bíblia

O que é comunhão entre os irmãos? Entenda o sentido de koinonia, a comunhão dos santos e por que ela é mais que amizade.

Igreja Presbiteriana Pioneira · leitura de 7 min

Comunhão entre os irmãos é a vida compartilhada pelos que pertencem a Cristo: por estarem unidos a ele, estão unidos uns aos outros, e por isso partilham a fé, a Palavra, a oração, os bens, as alegrias e os sofrimentos. É mais profunda do que amizade e do que convívio social, porque se baseia em algo que os irmãos têm em comum, e que não escolheram: o mesmo Salvador.

A palavra grega para comunhão é koinonia, que significa "participação em comum", "partilha". Neste artigo, vamos ver o que a Bíblia diz, como a tradição reformada resume o ensino na "comunhão dos santos" e como viver isso em termos práticos.

O que significa koinonia no Novo Testamento?

A palavra aparece em vários contextos, e cada um mostra um lado da comunhão:

  • Com Deus: "a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo" (1Jo 1.3). É o fundamento de tudo.
  • Com os irmãos: "se andamos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros" (1Jo 1.7).
  • No evangelho: Paulo agradece aos filipenses pela "vossa cooperação [koinonia] no evangelho" (Fp 1.5).
  • Nos bens: a igreja primitiva "tinha tudo em comum" (At 2.44) e, em 2Coríntios 8-9, as igrejas partilham ofertas pelos necessitados.
  • Nos sofrimentos: "participação nos sofrimentos de Cristo" (Fp 3.10).

Veja que a comunhão começa vertical (com Deus por Cristo) e se estende horizontalmente (aos irmãos). Sem a primeira, a segunda não passa de simpatia. Sem a segunda, a primeira se torna uma fé isolada.

O que é a "comunhão dos santos"?

A frase aparece no Credo Apostólico: "Creio na santa igreja universal, na comunhão dos santos". "Santos", na Bíblia, são todos os que pertencem a Deus, e não só os "super-religiosos". A Confissão de Westminster (cap. 26) a explica em dois níveis:

  1. Comunhão com Cristo. Todos os santos que estão unidos a Cristo pelo Espírito e pela fé têm comunhão com ele na sua graça, nos seus sofrimentos, na sua morte, na sua ressurreição e na sua glória. Isso se chama união com Cristo: o crente está ligado a Cristo como os ramos à videira (Jo 15.5).
  2. Comunhão uns com os outros. Estando unidos em amor, os santos têm comunhão nos dons e graças, e são obrigados a cumprir os deveres públicos e privados que contribuem para o bem mútuo, "tanto no homem interior como no exterior".

A Confissão acrescenta que essa comunhão não faz ninguém participante da divindade de Cristo nem torna os bens dos membros propriedade comum, no sentido de eliminar a propriedade privada: significa que cada um, com o que tem, serve aos outros, conforme as necessidades e oportunidades.

O que a comunhão envolve na prática?

O livro de Atos 2.42-47 é o retrato do que a comunhão produz. Dele e de outros textos, extraímos exemplos concretos:

  1. Aprender juntos. Estudar a Palavra, sentar-se sob a mesma pregação, perguntar, discutir com humildade. Veja o que é a Escola Bíblica Dominical.
  2. Orar uns pelos outros. "Orai uns pelos outros" (Tg 5.16). Isso inclui saber pelo que os outros passam.
  3. Partilhar a mesa. Comer juntos, receber em casa. "Partiam o pão em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração" (At 2.46). A Ceia é o ponto máximo dessa partilha. Veja a Ceia do Senhor.
  4. Carregar os fardos. "Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo" (Gl 6.2). Visitar o enfermo, acompanhar o enlutado, ajudar a mudar de casa, cuidar dos filhos de quem está em crise.
  5. Repartir os bens. Dar conforme a necessidade, sem humilhar quem recebe (At 4.34-35).
  6. Alegrar-se e chorar juntos. "Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram" (Rm 12.15).
  7. Corrigir com amor. A comunhão genuína inclui exortação mansa, e não apenas elogios (Gl 6.1; Pv 27.6). Veja o que é disciplina eclesiástica.

Comunhão é a mesma coisa que amizade?

Não, e a diferença é importante. Amizade nasce de afinidade: gostamos das mesmas coisas. A comunhão cristã nasce de uma fé comum, e por isso reúne pessoas que, humanamente, talvez nunca se aproximariam: ricos e pobres, jovens e idosos, de várias origens e profissões. Paulo escreve que, em Cristo, "não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher" (Gl 3.28).

Isso não impede que surjam amizades profundas na igreja, e elas são bem-vindas. Mas a comunhão não depende de simpatia mútua. Há irmãos de quem você talvez não goste muito, e que mesmo assim são seus irmãos por obra de Cristo. A comunhão é um dom que se recebe, e não uma simpatia que se constrói.

Posso ter comunhão só com quem pensa igual a mim?

A Bíblia pede unidade em Cristo, não uniformidade de gosto. Em questões de menor importância, como o dia de comemorar ou o que comer, Paulo pede paciência e acolhimento mútuo (Rm 14.1-4). Nos fundamentos do evangelho, porém, a comunhão exige concordância na verdade: "Procurai conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito... uma só fé" (Ef 4.3-5). Daí a importância de uma confissão de fé: ela diz em que se baseia a comunhão daquela igreja. Veja no que cremos.

Como viver comunhão numa igreja onde conheço poucas pessoas?

Alguns passos simples:

  • Frequente com regularidade. A comunhão cresce no tempo. Quem aparece de vez em quando dificilmente forma vínculos.
  • Chegue mais cedo, fique mais tempo. Converse antes e depois do culto. Muita comunhão acontece nos corredores.
  • Participe de um grupo pequeno, de um estudo bíblico ou de um ministério. Veja a seção ministérios.
  • Aceite ou ofereça uma refeição. A hospitalidade é uma ordem bíblica (Rm 12.13; Hb 13.2).
  • Dê o primeiro passo. Apresente-se a quem está sozinho.
  • Seja sincero. A comunhão não prospera onde todos fingem estar bem.
  • Seja paciente. Vínculos reais levam meses e anos.

E quando há conflito entre irmãos?

Conflitos acontecem em toda família, e a igreja não é exceção. O que distingue a comunhão cristã é como se lida com eles: procura-se a reconciliação, e não o silêncio ou a vingança. "Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão" (Mt 5.23-24). Se você está magoado, leia também o que fazer quando me decepciono com a igreja.

A comunhão acaba depois do culto?

Não deveria. A comunhão cristã é para a semana toda: mensagens, telefonemas, visitas, ajuda, orações. O culto é o ponto alto, mas a vida de igreja acontece também entre os domingos. A quinta-feira, às 20h, por exemplo, é um tempo de estudo bíblico em que muita gente cria vínculos. Veja os horários em cultos.

Perguntas frequentes

O que significa comunhão entre os irmãos?

É a participação mútua dos cristãos na vida uns dos outros, fundada na união de todos com Cristo: partilhar a fé, a Palavra, a oração, os bens e as dores.

O que é a comunhão dos santos?

É a expressão do Credo Apostólico para a união de todos os crentes com Cristo e entre si, partilhando dons e graças e servindo uns aos outros.

Comunhão é só ir ao culto?

Não. O culto é parte, mas a comunhão envolve conhecer, ajudar, orar e conviver com os irmãos durante a semana.

Preciso gostar de todos os irmãos para ter comunhão?

Não. A comunhão se baseia na fé comum em Cristo, e não em afinidade. Amamos os irmãos pela graça, mesmo os diferentes de nós.