O que é disciplina eclesiástica e por que ela existe

O que é disciplina eclesiástica? Entenda a finalidade de restauração, a base em Mateus 18, as etapas e por que o objetivo nunca é punir nem humilhar.

Igreja Presbiteriana Pioneira · leitura de 7 min

Disciplina eclesiástica é o cuidado que a igreja exerce, conforme a Bíblia, sobre os membros que persistem em pecado ou em ensino errado, com o objetivo de trazê-los de volta a Cristo, proteger a igreja e honrar o nome de Deus. A finalidade é a restauração. Não é punição, vingança, nem exposição pública para humilhar alguém.

É um assunto difícil e muito mal-entendido. Muita gente só ouve falar de disciplina em histórias de abuso, e esses abusos existem e precisam ser reconhecidos. Mas a Bíblia trata do assunto como ato de amor. Vamos ver a base, o propósito, as etapas e os limites.

O que a Bíblia diz sobre disciplina na igreja?

A passagem mais conhecida é Mateus 18.15-17, em que Jesus ensina:

  1. "Se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele só. Se te ouvir, ganhaste teu irmão."
  2. "Se não te ouvir, leva contigo mais um ou dois, para que... toda a palavra seja confirmada."
  3. "Se ele não os escutar, dize-o à igreja; e se também não escutar a igreja, considera-o como gentio e publicano."

Outros textos importantes:

  • Gálatas 6.1: "Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, encaminhai-o com espírito de brandura, e guarda-te para que não sejas também tentado."
  • 1Coríntios 5: Paulo trata do caso de um irmão em imoralidade grave, e manda que a igreja o afaste, "para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus".
  • 2Coríntios 2.5-8: quando houve arrependimento, Paulo manda perdoar e consolar, "para que não suceda que o tal seja consumido de excessiva tristeza", e "confirmar o amor para com ele".
  • Hebreus 12.5-11: a disciplina de Deus é sinal de amor de Pai.
  • Tito 3.10 e 2Tessalonicenses 3.14-15: afastar o que causa divisão, mas "não o considereis como inimigo; antes, admoestai-o como irmão".

Por que a igreja exerce disciplina?

A Confissão de Westminster (cap. 30) ensina que as censuras eclesiásticas existem "para ganhar e reconduzir os irmãos que ofendem, para impedir que outros pratiquem ofensas semelhantes, para expurgar o fermento que poderia contaminar toda a massa, para vindicar a honra de Cristo e a santa profissão do evangelho e para evitar a ira de Deus". Em linguagem simples, são cinco propósitos:

  1. Restaurar quem se desviou. Este é o primeiro e principal.
  2. Proteger os outros, em especial os mais fracos.
  3. Purificar a igreja do mal que se espalha.
  4. Honrar a Cristo e o testemunho do evangelho diante do mundo.
  5. Evitar o desagrado de Deus sobre a comunidade (1Co 11.27-32).

Repare que o primeiro item aparece antes dos demais. A disciplina é como a de um pai que corrige o filho, e não como a de um juiz que condena um réu. "O Senhor corrige a quem ama" (Hb 12.6).

Por que a disciplina é considerada uma marca da igreja?

Na tradição reformada, as "marcas" da igreja verdadeira são a pregação fiel da Palavra, a correta administração dos sacramentos e o exercício da disciplina. Uma igreja que prega o evangelho e não cuida de quem o nega com a vida, ou o contradiz com o ensino, deixa de proteger o rebanho. A Confissão de Westminster dedica o capítulo 30 às "censuras eclesiásticas", e Cristo deu às autoridades da igreja "as chaves do reino dos céus" (Mt 16.19; 18.18) para exercer esse cuidado. Ou seja, é uma ordenança de Cristo, e não uma invenção humana para controlar pessoas. Quando falta, a igreja tende a um de dois extremos: o laxismo, que tolera tudo, ou o autoritarismo, que pune sem cuidado.

Disciplina é só punição?

Não. Esse é o maior engano. A disciplina, no sentido bíblico, é muito mais ampla do que "punir". Os reformadores falam de disciplina formativa (ensino, exemplo, instrução, acompanhamento) e de disciplina corretiva (admoestação, repreensão, afastamento). A parte formativa é a maior e a mais diária: pregação, ensino, cuidado pastoral, comunhão.

A correção, quando necessária, tem como alvo a restauração. Por isso, o texto de Mateus 18 começa de forma particular e discreta, e só avança se houver recusa persistente de arrependimento. Fofoca não é disciplina; humilhação pública sem necessidade não é disciplina; vingança pessoal não é disciplina. Passos como esses contradizem o texto bíblico.

Como funciona, na prática, numa igreja presbiteriana?

Na IPB, a disciplina é exercida pelo Conselho, e não por indivíduos ou por votação popular. Existem normas escritas nos documentos da igreja, que preveem um processo com direito de defesa e etapas progressivas. Ao longo dele, em geral:

  1. Admoestação particular: conversa pastoral com o irmão. A maioria das situações se resolve aqui, e nunca chega ao conhecimento da igreja.
  2. Admoestação formal pelo Conselho, se o problema persiste.
  3. Censuras ("repreensão" e "suspensão da comunhão"), em casos mais graves. A suspensão impede, temporariamente, a participação na Ceia do Senhor e em certos direitos de membro. Veja quem pode participar da Ceia.
  4. Exclusão, em casos extremos de impenitência e rebeldia.

Os termos exatos e os procedimentos estão nos documentos da igreja (Constituição, Código de Disciplina), e podem variar em detalhe de uma situação para outra. O Conselho precisa seguir o processo previsto, ouvir o acusado e agir com cuidado, justiça e oração.

Em que casos a disciplina se aplica?

A disciplina não existe para qualquer falha. Todos pecamos todos os dias; se a igreja disciplinasse cada pecado, ninguém ficaria. Em geral, os casos que levam a um processo são:

  • Pecado grave e público, como imoralidade, violência ou fraude;
  • Pecado persistente e impenitente, quando alguém, advertido, recusa-se a se arrepender;
  • Heresia ou ensino que destrói a fé, quando alguém, depois de corrigido, insiste em ensinar contra o evangelho;
  • Divisão, quando alguém se torna causador de brigas e cisões.

Falhas, fraquezas, dúvidas e quedas seguidas de arrependimento sincero pedem paciência e acolhimento, e não processo. O irmão que cai e se levanta está sendo conduzido pelo Espírito.

Quando alguém se arrepende, o que acontece?

A igreja perdoa e restaura. É o objetivo do processo. Paulo é enfático: "Assim, deveis antes perdoar-lhe e consolá-lo, para que ele não seja consumido de excessiva tristeza" (2Co 2.7). Restaurar significa receber a pessoa de volta à comunhão sem reservas, sem lembrar o erro com desprezo e sem pôr uma "marca" permanente. O pecado perdoado em Cristo é perdoado (Sl 103.12).

A restauração não anula consequências naturais, como a perda de uma função de liderança ou a necessidade de reparar danos. Mas a pessoa continua sendo irmã.

E em casos de abuso, violência ou crime?

Aqui é preciso clareza: disciplina eclesiástica não substitui a justiça civil. Em casos de violência doméstica, abuso sexual ou crimes, a prioridade é proteger a vítima e acionar as autoridades competentes (Rm 13.1-4). A igreja nunca deve usar "perdão" ou "restauração" para pressionar uma vítima a se calar ou para encobrir o agressor. Se você vive uma situação assim, procure as autoridades, ajuda profissional e o pastor, nessa ordem de segurança que for possível.

O que fazer se eu estou sendo disciplinado, ou conheço quem está?

Se é você, tente receber a correção como cuidado, mesmo quando dói. Peça esclarecimento, converse com o pastor, procure um irmão maduro, e lembre que Deus corrige quem ama. Se sente que há injustiça ou abuso, o processo presbiteriano prevê recursos a instâncias superiores, de modo que ninguém fica sem apelação. Se é alguém próximo, não o abandone: "restaurem-no com espírito de brandura".

Para entender quem toma essas decisões, leia o que é o Conselho da igreja e o que faz um presbítero.

Perguntas frequentes

O que é disciplina eclesiástica?

É o cuidado da igreja com membros que persistem em pecado grave ou em erro doutrinário, para restaurá-los, proteger a comunidade e honrar a Cristo, conforme Mateus 18 e outros textos.

Disciplina na igreja é punição?

Não. Sua finalidade é restaurar a comunhão com Deus e com a igreja. A Bíblia manda tratar o disciplinado "como irmão" e perdoá-lo quando se arrepende.

Quem aplica a disciplina?

Na igreja presbiteriana, o Conselho, composto pelo pastor e pelos presbíteros, seguindo o processo previsto nos documentos da igreja, com direito a defesa e a recurso.

A disciplina substitui a polícia em casos de crime?

Não. Em crimes, como abuso e violência, a vítima deve ser protegida e as autoridades acionadas. A igreja não deve acobertar nada.