Quem foi Martinho Lutero — vida e legado na Reforma

Quem foi Martinho Lutero? Conheça a trajetória do monge alemão que deu início à Reforma, suas ideias centrais, a Bíblia em alemão e o seu legado.

Igreja Presbiteriana Pioneira · leitura de 6 min

Martinho Lutero foi um monge agostiniano e professor de Bíblia na Alemanha do século 16 que, em 1517, tornou públicas 95 teses contra a venda de indulgências e acabou dando início à Reforma Protestante. Ele é lembrado por redescobrir, na leitura das cartas de Paulo, que o pecador é justificado diante de Deus pela fé em Cristo, e não por seus méritos, e por traduzir a Bíblia para o alemão. Embora não seja o fundador do presbiterianismo, Lutero abriu o caminho em que as igrejas reformadas caminharam.

A importância dele para os presbiterianos está menos em seguir um "líder" e mais em reconhecer o que Deus fez por meio de um homem comprometido com a Escritura.

Que tipo de homem era Lutero?

Lutero era monge e professor na cidade de Wittenberg. Era sério, estudioso, de consciência inquieta e muito dedicado à vida religiosa. Ele mesmo relatou que, por muito tempo, tentou agradar a Deus por esforços, jejuns e penitências, e que isso só aumentava seu medo do juízo divino. A pergunta que o atormentava era: como obter um Deus gracioso?

Esse dado ajuda a entender sua obra. A Reforma, para ele, não foi um projeto político, e sim uma resposta a uma angústia espiritual real.

O que ele descobriu nas Escrituras?

Estudando a carta aos Romanos, Lutero percebeu que a "justiça de Deus" de que fala Paulo não é apenas a justiça com que Deus condena, mas a justiça que ele concede a quem crê. O texto-chave é Romanos 1.17: "O justo viverá por fé". Em outras palavras, Deus declara justo o pecador que confia em Cristo, por causa do que Cristo fez.

Essa ideia ficou conhecida como justificação pela fé. Ela diz que:

  • a salvação é dom, e não conquista;
  • as boas obras são fruto da fé, e não sua condição;
  • o cristão está, ao mesmo tempo, justo (em Cristo) e pecador (em si), e vive da graça cada dia.

É o mesmo ensino que os presbiterianos mantêm hoje (Efésios 2.8-9; Gálatas 2.16).

O que foram as 95 teses?

Em 1517, a Igreja promovia a venda de indulgências para financiar uma grande obra. Lutero, como pastor e professor, se preocupou com o fato de que as pessoas confiavam nesses documentos como garantia de perdão. Preparou então 95 teses para debate acadêmico, em que questionava a prática e afirmava que o perdão vem de Deus pelo arrependimento e pela fé, e não do pagamento.

As teses se espalharam rapidamente, ajudadas pela imprensa, e transformaram um debate universitário em um movimento europeu. O contexto geral é narrado em o que foi a Reforma Protestante.

Como foi o confronto com as autoridades?

Lutero foi chamado a retratar suas ideias e se recusou, afirmando que só poderia fazê-lo se fosse convencido pela Escritura. A tradição lhe atribui a frase "Aqui estou, não posso fazer outra coisa", mas historiadores discutem se ela foi mesmo dita naquelas palavras. O fato é que ele manteve sua posição, foi condenado pela Igreja e ficou sob proteção de um príncipe alemão, que o abrigou por algum tempo.

Esse episódio mostra uma convicção fundamental: a consciência cativa à Palavra de Deus não pode ser forçada a negar o que a Escritura ensina.

Qual foi a contribuição da Bíblia em alemão?

Durante o período de proteção, Lutero traduziu o Novo Testamento para o alemão e, mais tarde, a Bíblia toda. A tradução tornou a Palavra de Deus acessível ao povo comum e teve forte influência na língua alemã. Ele defendia que todo cristão deve poder ler as Escrituras em sua língua, e isso marcou a prática protestante, que sempre valorizou a leitura bíblica e o ensino, como se vê em por que presbiterianos valorizam a Escola Bíblica.

Lutero também escreveu catecismos, para ensinar a fé a famílias e crianças, e hinos que ainda são cantados.

Qual é o lugar de Lutero no presbiterianismo?

As igrejas luteranas seguem diretamente seu ensino. As igrejas reformadas, como as presbiterianas, vêm de outra linha, ligada a Zuínglio e Calvino, mas reconhecem em Lutero o primeiro grande passo e partilham com ele pontos centrais: a autoridade da Escritura, a justificação pela fé e o sacerdócio de todos os crentes (1 Pedro 2.9). Há diferenças entre as tradições, por exemplo no entendimento da Ceia e do culto, e é preciso dizer que Lutero e os reformadores suíços discordaram em alguns pontos.

O desdobramento posterior na Escócia está em quem foi John Knox.

Lutero tinha defeitos?

Sim, e é honesto reconhecê-lo. Alguns escritos de Lutero contêm linguagem dura e atitudes que hoje são criticadas, como declarações ásperas contra seus adversários e contra os judeus, que cristãos de todas as tradições lamentam. Os presbiterianos não o consideram infalível: ele foi um servo usado por Deus, mas pecador, e só a Escritura é a regra final.

Em que Lutero e a tradição reformada se aproximam e se afastam?

A tradição calvinista das igrejas presbiterianas reconhece em Lutero um aliado nos pontos decisivos. Um deles é a convicção de que a vontade humana, depois da queda, está presa ao pecado: Lutero defendeu isso em sua obra Do Servo Arbítrio, e os reformados desenvolveram o ensino como depravação total, o pecado atingindo toda a pessoa, de modo que ninguém busca a Deus por si mesmo (Romanos 3.11). A ênfase dele na graça que opera a salvação, e não na cooperação humana, aproxima-se do que depois se chamou graça eficaz e soberania de Deus na salvação.

Os caminhos se separam em alguns pontos. Lutero manteve mais elementos da prática anterior no culto, enquanto os reformados adotaram a regra de culto: só se pratica na adoração o que a Escritura manda ou autoriza. Divergiram também quanto à presença de Cristo na Ceia. E a teologia do pacto e a sistematização da eleição, da expiação e da perseverança ficaram mais desenvolvidas entre os reformados. Os dois lados sempre se reconheceram como irmãos no evangelho da graça, mesmo com essas diferenças.

O que aprender com a vida de Lutero?

Algumas lições ficam para quem lê sua história com atenção. A primeira é que a angústia de consciência pode ser o caminho pelo qual Deus conduz alguém ao evangelho: Lutero só encontrou paz quando parou de olhar para si e olhou para Cristo. A segunda é a coragem de submeter tudo à Escritura, mesmo quando isso custa a reputação, o conforto ou a segurança. A terceira é a importância de tornar a Palavra acessível: traduzir, ensinar e cantar são formas de servir ao povo de Deus.

Há também um aviso. O próprio Lutero, com todos os seus defeitos, mostra que Deus usa pessoas imperfeitas, e que a igreja deve julgar tudo, inclusive seus líderes mais admirados, pelas Escrituras (Atos 17.11). É uma lição que os presbiterianos levam a sério, e que se estende a seus próprios pastores e confissões.

Perguntas frequentes

Lutero foi o fundador do protestantismo?

É considerado o iniciador da Reforma, mas o movimento teve outros líderes em vários países. Dele nasceram as igrejas luteranas, e de outros reformadores as reformadas e presbiterianas.

Lutero era padre?

Era monge da ordem agostiniana e foi ordenado sacerdote. Também era doutor em teologia e ensinava Bíblia na universidade de Wittenberg.

O que é justificação pela fé?

É a doutrina de que Deus declara justo o pecador que confia em Cristo, por causa da obra de Cristo, e não por seus méritos. As boas obras seguem a fé como fruto.

Os presbiterianos seguem Lutero?

Não no sentido de ter um "líder". Seguem a Bíblia e se reconhecem na tradição reformada, que compartilha com Lutero os pontos centrais do evangelho da graça.