Presbiterianos leem só a Bíblia ou seguem tradição?

Presbiterianos leem só a Bíblia ou seguem tradição? Entenda o princípio da sola Scriptura, o papel dos credos e da Confissão e como a igreja interpreta.

Igreja Presbiteriana Pioneira · leitura de 6 min

Presbiterianos leem só a Bíblia ou seguem tradição? A resposta é que os presbiterianos reconhecem a Bíblia como única regra infalível de fé e prática, mas não leem a Bíblia sozinhos nem ignoram a história da Igreja. Eles se valem de credos, confissões, catecismos e dos ensinos de cristãos de outras épocas como ajuda para entender a Escritura, sempre submetendo essas ajudas ao julgamento da própria Bíblia. Esse é o princípio conhecido como sola Scriptura, "somente a Escritura", e não significa "Bíblia sem tradição", e sim "Bíblia acima de toda tradição".

Isso é um dos pontos centrais da Reforma e uma das perguntas que mais aparecem em conversas com católicos, com amigos de outras igrejas e com quem desconfia de confissões escritas.

O que quer dizer sola Scriptura?

Sola Scriptura afirma que a Escritura é a autoridade final em matéria de fé e de conduta. O que a Bíblia ensina obriga a consciência, e o que contraria a Bíblia deve ser rejeitado, venha de onde vier. O fundamento está em 2 Timóteo 3.16-17: "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra".

Alguns outros textos são lembrados:

  • Atos 17.11: os bereanos "examinavam as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim", mesmo diante da pregação de Paulo.
  • Marcos 7.8-9, em que Jesus critica tradições humanas que anulam o mandamento de Deus.
  • Salmo 119.105: "Lâmpada para os meus pés é a tua palavra".

Isso significa que presbiterianos ignoram a tradição?

Não. Ignorar a tradição seria arrogância histórica, como se ninguém tivesse entendido a Bíblia antes de nós. Os presbiterianos reconhecem:

  1. Os credos antigos, como o Credo Apostólico, que resumem verdades bíblicas aceitas por cristãos de todas as épocas.
  2. Os grandes teólogos da Igreja, que ajudam a ler a Bíblia, ainda que possam errar.
  3. As confissões da Reforma, como a Confissão de Westminster, que organizam a doutrina.
  4. A leitura comunitária, pois a Bíblia é lida dentro da igreja, e não de modo isolado.

A diferença é de posição: a tradição é uma autoridade subordinada, que pode ser avaliada, enquanto a Escritura é a autoridade suprema. Os símbolos de fé da IPB são explicados em o que são os Símbolos de Fé, e a própria Confissão diz que "todos os concílios podem errar", e que apenas a Escritura é infalível.

Qual a diferença para a posição católica?

Para a Igreja Católica, a revelação de Deus se transmite por duas vias que se unem, a Escritura e a Sagrada Tradição, e o magistério da Igreja interpreta ambas com autoridade. Para os presbiterianos, a Escritura é suficiente e a medida final. A tradição tem valor, mas não define sozinha uma doutrina nova.

Católicos e presbiterianos concordam que a Bíblia é inspirada e que os primeiros séculos da Igreja merecem respeito. Discordam quanto ao grau de autoridade da tradição e de quem a interpreta de modo definitivo. A comparação mais ampla está em a diferença entre presbiteriana e católica.

Cada um pode interpretar a Bíblia como quiser?

Não. Sola Scriptura não é o mesmo que "cada um interpreta como acha melhor". A tradição reformada apresenta alguns princípios para a leitura bíblica:

  • A Escritura interpreta a Escritura. Passagens difíceis são lidas à luz das claras.
  • Contexto e gênero literário importam. Poesia, narrativa e carta se leem de formas distintas.
  • A Bíblia forma um todo coerente, centrado em Cristo (Lucas 24.27).
  • A igreja lê em comunhão. A comunidade, os pastores e a história ajudam a corrigir interpretações individuais.
  • A oração e a dependência do Espírito acompanham o estudo.

A pregação expositiva, praticada na tradição presbiteriana, é um exemplo: o pastor explica o texto em sequência, para que a congregação aprenda a ler a Bíblia com método.

E por que ter uma Confissão se a Bíblia basta?

Porque a Bíblia é suficiente, mas precisa ser resumida e ensinada. Uma confissão não acrescenta nada ao que Deus revelou. Ela mostra, de modo organizado, o que a igreja entende que a Bíblia ensina, e protege contra ensinos que se dizem bíblicos, mas contradizem o conjunto. Todos têm uma tradição, ainda que não escrita. A diferença é que os presbiterianos a escrevem e a expõem à crítica da Escritura.

E as novas revelações?

A Confissão de Westminster ensina que o conjunto das Escrituras está completo, e que não se acrescentam novas revelações a ele. Isso não nega que Deus guie seu povo hoje pelo Espírito, mas afirma que qualquer orientação deve ser medida pela Bíblia. O ponto é tratado, do lado da diferença com os pentecostais, em a diferença entre presbiteriana e Assembleia de Deus.

Como isso aparece na rotina da igreja?

  • Na pregação, que parte do texto bíblico e o explica;
  • Na Escola Bíblica, que ensina a Bíblia a todas as idades;
  • No catecismo, que ensina doutrina de forma sistemática;
  • Na disciplina, que avalia ensino e conduta pela Palavra.

Quem quer ouvir como isso funciona pode acompanhar a pregação, e quem quer conhecer o ensino da escola dominical pode ler por que presbiterianos valorizam a Escola Bíblica.

Como a regra de culto aplica a sola Scriptura?

O princípio da suficiência da Escritura se estende ao culto. A tradição reformada e calvinista ensina a regra de culto: o culto é regulado pela Palavra, não pelo gosto. Isso significa que se faz na adoração aquilo que a Bíblia manda ou autoriza, como a leitura, a pregação, a oração, o canto e os sacramentos, e não aquilo que parece atraente ou emocionante. A base está em passagens como Deuteronômio 12.32 e Mateus 15.9.

O mesmo vale para a interpretação. A igreja usa o método gramático-histórico: o texto é lido conforme o sentido que suas palavras tinham no contexto em que foram escritas. Não há lugar para a alegoria arbitrária, para a numerologia nem para a revelação nova, porque a Escritura é suficiente. A soberania de Deus fundamenta a convicção: quem fala é o Senhor, e sua palavra basta. Cristãos de outras tradições dão mais espaço à experiência, à tradição ou à espontaneidade, e esses irmãos devem ser tratados com respeito. A diferença está em onde se coloca a autoridade final.

Perguntas frequentes

O que significa sola Scriptura?

Significa "somente a Escritura". É o princípio de que a Bíblia é a autoridade final em matéria de fé e prática, acima de qualquer tradição humana.

Presbiterianos usam outros livros além da Bíblia?

Usam, como auxílio. A Confissão de Westminster, os catecismos, os comentários e os livros de teologia ajudam a entender a Bíblia, mas são subordinados a ela.

Presbiterianos leem os pais da Igreja?

Muitos leem e valorizam os pais da Igreja, como lembrança do que cristãos de séculos anteriores entenderam, sem tratá-los como infalíveis.

Quem decide o que a Bíblia significa na igreja presbiteriana?

A interpretação é fruto do estudo da própria Escritura, em comunidade e sob a supervisão do Conselho e dos concílios. Pastores e presbíteros se comprometem a ensinar conforme os padrões da igreja.