Quem escreveu a Bíblia: autores humanos e autor divino

Quem escreveu a Bíblia? Cerca de quarenta autores humanos, em séculos diferentes, movidos por Deus. Entenda o que é inspiração e como ela funciona.

Igreja Presbiteriana Pioneira · leitura de 6 min

Quem escreveu a Bíblia? A resposta cristã tem duas camadas: muitos autores humanos, de épocas, profissões e estilos diferentes, e um só autor divino, Deus, que os conduziu para que registrassem exatamente o que ele quis. Não foi um ditado mecânico nem uma invenção de religiosos: a Bíblia se apresenta como palavra humana e, ao mesmo tempo, Palavra de Deus. Este artigo explica quem foram os escritores, como a Bíblia entende a inspiração e por que isso importa.

Quantos autores humanos a Bíblia teve?

É comum dizer que foram cerca de quarenta homens, escritos ao longo de aproximadamente um milênio e meio. O número exato depende de como se atribui a autoria de alguns livros, e a Bíblia não dá nome para todos. Em vários livros o autor não é identificado, e o debate sobre eles é antigo.

O que se pode afirmar com segurança é a diversidade deles:

  • Moisés, criado na corte do Egito e pastor no deserto, ligado ao Pentateuco.
  • Davi, rei e músico, ligado a muitos Salmos.
  • Salomão, rei, ligado a boa parte de Provérbios.
  • Profetas como Isaías, Jeremias e Daniel, de gerações e situações diferentes.
  • Lucas, médico, autor do Evangelho que leva seu nome e de Atos.
  • Pedro, pescador, e João, pescador e depois apóstolo, cujos escritos estão no Novo Testamento.
  • Paulo, fariseu convertido, autor de boa parte das cartas.

Pessoas de épocas, línguas e classes sociais tão distintas escreveram textos que, reunidos, apresentam uma mensagem coerente. Para o cristão, essa unidade não é coincidência: é sinal de que há um autor por trás dos autores.

O que a Bíblia diz sobre a sua própria origem?

Dois textos são centrais. O primeiro: "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça" (2 Timóteo 3.16). A palavra traduzida por "inspirada" significa literalmente algo como "soprada por Deus". A origem do texto está em Deus.

O segundo: "Nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana, mas os homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo" (2 Pedro 1.21). Aqui aparece a combinação: homens falaram, mas movidos pelo Espírito.

A Confissão de Fé de Westminster, no capítulo 1, descreve a Escritura como Palavra de Deus escrita e declara que a sua autoridade não depende do testemunho de nenhum homem ou igreja, mas de Deus, seu autor.

Foi um ditado? Como funciona a inspiração?

Alguns trechos da Bíblia são de fato ditados: Deus diz a Moisés e aos profetas "escreve" ou "dize". Mas isso não descreve o conjunto. Lucas, por exemplo, abre o seu Evangelho dizendo que muitos já haviam escrito narrativas, que ele investigou tudo desde o princípio e resolveu escrever "por ordem" o que se sabia (Lucas 1.1-4). Ele pesquisou, entrevistou, organizou. E isso é inspirado.

A visão reformada afirma que Deus, em sua providência, preparou cada autor: sua formação, seu vocabulário, sua experiência. O Espírito Santo atuou de modo que o resultado fosse exatamente o que Deus queria e sem erro, preservando ao mesmo tempo a personalidade de cada escritor. Por isso Paulo soa diferente de João, e Isaías é diferente de Amós. Não é um ditado que apaga o autor, nem uma inspiração vaga que deixa a Bíblia refém dos erros humanos.

A palavra técnica para isso é inspiração plenária (todo o texto, e não apenas partes) e verbal (as palavras, e não só as ideias). Soa complicado, mas diz apenas que o texto bíblico, como está, é Palavra de Deus.

Os autores sabiam que estavam escrevendo Escritura?

Em muitos casos, sim. Paulo diz aos tessalonicenses que, ao receberem a palavra pregada por ele, a acolheram "não como palavra de homens, mas como palavra de Deus, o que de fato é" (1 Tessalonicenses 2.13). E Pedro, ao falar das cartas de Paulo, as coloca ao lado "das demais Escrituras" (2 Pedro 3.15-16), indicando que já então elas eram reconhecidas como Escritura.

Isso não significa que cada autor tivesse consciência de estar compondo um livro destinado à Bíblia. A igreja reconheceu depois quais livros eram dados por Deus, e não os criou. Essa história, de como os livros foram reconhecidos, copiados e traduzidos, está em como a Bíblia chegou até nós.

Moisés escreveu o Pentateuco?

A tradição judaica e cristã atribui o Pentateuco a Moisés, e o Novo Testamento fala da "lei de Moisés" com naturalidade (Lucas 24.44). Estudiosos que respeitam a Bíblia convivem com a pergunta sobre se algum material foi atualizado depois, como o relato da morte de Moisés no fim de Deuteronômio, que obviamente ele não escreveu. A posição reformada tradicional mantém a autoria mosaica como o núcleo do Pentateuco. É honesto reconhecer que essas perguntas existem e que cristãos fiéis as respondem com variações de detalhe, sem negar a inspiração.

Quem escreveu cada parte do Novo Testamento?

Os escritores do Novo Testamento são testemunhas ou colaboradores próximos dos apóstolos:

  • Evangelhos: Mateus e João eram apóstolos. Marcos e Lucas foram colaboradores dos apóstolos, segundo a tradição da igreja primitiva.
  • Atos: Lucas.
  • Cartas de Paulo: treze, que levam o nome dele.
  • Tiago e Judas: identificados no texto como servos de Jesus Cristo, tradicionalmente tidos como irmãos do Senhor.
  • Pedro e João: cartas atribuídas aos apóstolos.
  • Apocalipse: o autor se chama João.
  • Hebreus: o texto não indica o autor.

Ter conexão com os apóstolos tinha um peso especial: eles eram as testemunhas escolhidas por Cristo. Sobre os quatro Evangelhos, veja o que são os evangelhos e por que são quatro.

Por que isso importa para a fé?

Se a Bíblia fosse só literatura humana, ela seria uma obra de sabedoria antiga, útil e interessante, mas sujeita a erro e a ser corrigida por nós. Se é Palavra de Deus, ela tem autoridade: o que ela diz, Deus diz. Isso muda a forma de ler. Não lemos para julgar o texto, e sim para ser julgados e corrigidos por ele.

A tradição reformada resume essa convicção assim: a Escritura é a única regra infalível de fé e prática. É por isso que a igreja prega a partir dela e que a pregação expositiva existe: para que o que o texto diz, e não opiniões, seja ouvido. Veja o que é pregação expositiva.

A Bíblia também mostra que o autor divino não é distante. Ele fala para ser conhecido: "Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias falou-nos pelo Filho" (Hebreus 1.1-2). O centro de tudo é Cristo. Você pode ouvir a explicação de textos bíblicos nos cultos: veja cultos.

Perguntas frequentes

Quem escreveu a Bíblia segundo os cristãos?

Cerca de quarenta autores humanos, como Moisés, Davi, os profetas, Lucas, Pedro, João e Paulo, movidos pelo Espírito Santo. Por isso a Bíblia tem autores humanos e um só autor divino.

A Bíblia foi ditada por Deus?

Em alguns trechos, o texto foi de fato ditado. No conjunto, os autores usaram sua própria linguagem, pesquisa e estilo, conduzidos por Deus de modo que o resultado fosse a sua Palavra, sem erro.

Em quanto tempo a Bíblia foi escrita?

Ao longo de muitos séculos, aproximadamente mil e quinhentos anos, de acordo com a estimativa mais comum. Não há consenso sobre datas exatas de alguns livros.

Por que a Bíblia fala de coisas tão diferentes se tem um só autor?

Porque Deus usou gêneros variados: história, poesia, leis, cartas. A diferença de estilo reflete os autores humanos, e a unidade de mensagem reflete o autor divino. O centro de todos os livros é a obra de Deus em Cristo.