O que são os evangelhos e por que são quatro na Bíblia
O que são os evangelhos? Entenda o gênero, o que cada um dos quatro, Mateus, Marcos, Lucas e João, destaca em Jesus e por que as diferenças não são erro.
Igreja Presbiteriana Pioneira · leitura de 6 min
Os evangelhos são os quatro livros do Novo Testamento, Mateus, Marcos, Lucas e João, que narram a vida, o ensino, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Há quatro porque Deus quis que a pessoa e a obra de Cristo fossem apresentadas por quatro testemunhas, com ênfases diferentes e complementares, e não por uma só voz. As diferenças entre eles não são erro: são retratos distintos do mesmo Senhor, feitos para leitores diferentes.
O que significa a palavra "evangelho"?
"Evangelho" vem do grego e quer dizer boa notícia. No uso do Novo Testamento, não é primeiramente um livro, e sim uma mensagem: Deus, em Cristo, cumpriu o que prometeu e oferece perdão e vida a quem crê. Marcos abre assim o seu livro: "Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus" (Marcos 1.1).
Só mais tarde, a palavra passou a designar os escritos que registram essa boa notícia. Por isso se diz "o Evangelho segundo Mateus": é o evangelho, a mesma boa notícia, contada por Mateus.
Que tipo de livro é um evangelho?
Não é biografia completa, no sentido moderno, nem um mero tratado de doutrina. Os evangelhos selecionam e organizam fatos e discursos de Jesus com um propósito. O mais claro dos autores sobre isso é João: "Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome" (João 20.31). E João admite que Jesus fez muitas outras coisas que não foram registradas (João 21.25).
Isso quer dizer que cada evangelista escolheu o que contar e como organizar. Não é descuido, é intenção. Os evangelhos são historicamente confiáveis e teologicamente dirigidos, ao mesmo tempo.
O que destaca cada um dos quatro?
| Evangelho | Primeiros leitores (tradicionalmente) | Ênfase |
|---|---|---|
| Mateus | Leitores de formação judaica | Jesus como o Messias prometido, cumprindo o Antigo Testamento, e o Rei |
| Marcos | Leitores em geral, de ritmo mais ágil | Jesus em ação, o Servo sofredor, a cruz |
| Lucas | Um leitor chamado Teófilo e leitores de fora de Israel | Jesus como Salvador de todos, atenção aos pobres e marginalizados |
| João | A igreja em geral | Jesus como o Filho de Deus, o Verbo que se fez carne |
Essas ênfases são tendências, e não regras. Os quatro falam de tudo isso em algum grau. Mas elas ajudam a ler. Veja cada um.
Mateus
Começa com a genealogia de Jesus, ligando-o a Abraão e Davi, e cita frequentemente o Antigo Testamento para mostrar que as promessas se cumpriram. Traz grandes blocos de ensino, como o Sermão do Monte (Mateus 5 a 7).
Marcos
É o mais curto e dinâmico, com poucos discursos e muitas ações. Boa parte da narrativa se concentra nos dias finais da vida de Jesus, indicando o peso da cruz no seu relato. É boa porta de entrada, e é por isso que o recomendamos em por onde começar a ler a Bíblia.
Lucas
Lucas, que também escreveu Atos, afirma que investigou tudo desde o princípio para escrever "por ordem" a Teófilo, a fim de que ele tivesse certeza das coisas em que fora instruído (Lucas 1.1-4). Traz parábolas só dele, como a do filho pródigo e a do bom samaritano, e dá atenção às mulheres, aos pobres e aos estrangeiros.
João
É o mais diferente dos quatro. Conta menos episódios, mas com mais profundidade, e apresenta os grandes "Eu sou" de Jesus. Abre com a afirmação de que "no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (João 1.1).
Por que são quatro e não um só?
Por um lado, a resposta histórica: cada autor escreveu em momento e situação diferentes. Por outro, a resposta teológica: Deus quis que o testemunho de Cristo fosse multiplicado. Na lei de Israel, o testemunho confirmado por duas ou três testemunhas era firme (Deuteronômio 19.15). Quatro testemunhas independentes e complementares reforçam a credibilidade.
Há também um ganho de profundidade. Um só retrato não bastaria para uma pessoa tão rica. Quatro autores nos permitem ver Jesus como Rei, Servo, Salvador universal e Filho de Deus. Cada retrato não esgota o outro, e todos juntos não esgotam Jesus.
As diferenças entre os evangelhos são contradições?
Quem lê com atenção nota que nem sempre os relatos são idênticos: um conta um detalhe que o outro omite, a ordem de alguns episódios varia, as palavras de Jesus aparecem com ligeiras diferenças. Isso levanta a dúvida: seriam erros?
A resposta reformada é que omitir não é contradizer. Cada autor selecionava o que servia ao seu propósito. Duas testemunhas de um acidente descrevem a mesma cena com detalhes diferentes e, ainda assim, dizem a verdade. Quando um evangelho tem uma ordem diferente, muitas vezes o autor agrupa por tema, e não por cronologia. Quando as palavras de Jesus variam um pouco, é comum que sejam resumos fiéis do que ele ensinou, muitas vezes originalmente em aramaico e depois traduzido para o grego.
É verdade que alguns casos pedem estudo mais paciente, e cristãos sérios podem divergir sobre como harmonizar certos detalhes. É honesto reconhecer isso. Mas nenhum desses casos afeta o conteúdo central: quem Jesus é, o que fez e o que ensinou. Para lidar com trechos difíceis, o artigo o que fazer quando um texto parece contraditório traz um método.
Os três primeiros e o quarto
Mateus, Marcos e Lucas são chamados de evangelhos sinóticos, palavra que vem de "ver junto", porque têm muita coisa em comum e podem ser lidos lado a lado. João segue um caminho próprio, com outros episódios e discursos mais longos. Essa diferença não é rivalidade, e sim complemento.
Como ler os evangelhos hoje?
Algumas orientações:
- Leia um evangelho inteiro de cada vez, respeitando o argumento do autor.
- Pergunte o que cada episódio mostra sobre Jesus, antes de perguntar o que mostra sobre você. O centro é sempre ele.
- Leia as parábolas em seu contexto, observando a quem Jesus as contou e por quê.
- Lembre-se de que a cruz e a ressurreição são o ponto de chegada de todos os quatro.
Os evangelhos não são só um manual de conduta. São o anúncio de que Cristo veio salvar pecadores. Quem os lê apenas como um conjunto de bons conselhos perde o principal. Como Jesus disse: "O Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido" (Lucas 19.10).
Quer ouvir os evangelhos explicados em sequência? A pregação da igreja é feita a partir dos livros da Bíblia: veja pregação. E, para entender onde os evangelhos se encaixam no conjunto, leia antigo e novo testamento.
Perguntas frequentes
Por que existem quatro evangelhos na Bíblia?
Porque Deus quis que Cristo fosse apresentado por quatro testemunhas, com ênfases complementares: Mateus mostra o Messias prometido, Marcos o Servo em ação, Lucas o Salvador de todos e João o Filho de Deus.
Os evangelhos se contradizem?
Não. Eles diferem em seleção, ordem e detalhes, mas isso é diferente de contradição. Cada autor escolheu o que servia ao seu propósito. Alguns casos exigem estudo cuidadoso, mas nenhum afeta a mensagem central.
Qual evangelho devo ler primeiro?
João ou Marcos. João é claro sobre o seu propósito e profundo. Marcos é curto e direto. Depois, leia Lucas e Mateus.
O que são evangelhos sinóticos?
São Mateus, Marcos e Lucas, que contam muitos episódios em comum e podem ser lidos em paralelo. O nome vem de uma palavra grega que significa "ver junto".