Como estudar a Bíblia em família: guia prático para os pais
Como estudar a Bíblia em família? Um roteiro simples de culto doméstico, com horário, passos, cuidados com cada idade e o papel dos pais na aliança de Deus.
Igreja Presbiteriana Pioneira · leitura de 7 min
Estudar a Bíblia em família é reservar um momento regular, de dez a vinte minutos, em que os pais leem um trecho da Escritura, conversam sobre ele com os filhos e oram juntos. Não exige formação teológica, e funciona melhor quando é simples, curto e constante. Esse hábito, que a tradição reformada chama de culto doméstico, não substitui o culto da igreja nem a escola bíblica, mas prolonga e sustenta o que a igreja ensina durante a semana.
Por que estudar a Bíblia em família?
A Bíblia coloca a responsabilidade primeira de ensinar os filhos nos pais, e não na igreja. Deus ordena a Israel: "Estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te" (Deuteronômio 6.6-7). Paulo repete aos pais cristãos: "criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor" (Efésios 6.4).
Há também uma razão ligada à aliança. A teologia reformada entende que Deus se relaciona com o seu povo por uma aliança que inclui os filhos dos crentes. Pedro, no dia de Pentecostes, diz: "Para vós outros é a promessa, para vossos filhos" (Atos 2.39). É por isso que a igreja batiza os filhos de pais crentes: não porque o batismo salve automaticamente, mas porque são filhos da promessa e devem ser criados na fé. Com a promessa vem a responsabilidade: ensinar o que Deus fez, para que a próxima geração ponha nele a sua confiança. O salmista diz isso: os pais devem contar à geração vindoura os louvores do Senhor, para que ela os conheça e os conte aos seus filhos (Salmos 78.4-7).
Um limite honesto: a conversão é obra de Deus. Nenhum método garante que um filho creia. Os pais plantam e regam com fidelidade, e Deus dá o crescimento (1 Coríntios 3.6). O que dá paz aos pais é a certeza de que a sua tarefa é a fidelidade, e não o controle do resultado. Veja uma nota parecida em como ler Provérbios sem transformar em promessa.
Quando e onde fazer?
Escolha um horário que a família consiga manter. Os mais comuns:
- Depois do jantar, quando todos estão à mesa.
- Antes de dormir, para as crianças menores.
- Pela manhã, antes de sair, em versão curta.
Constância pesa mais que duração. É melhor dez minutos todo dia, ou cinco dias por semana, do que uma hora aos domingos que ninguém suporta. Se a rotina da casa for irregular, comece com três dias por semana e avance.
O local pode ser a mesa de jantar ou a sala. Desligue a televisão e deixe os celulares fora do alcance durante esse tempo.
Um roteiro simples em cinco partes
- Cantar ou orar brevemente para começar, pedindo que Deus abra os olhos de todos.
- Ler o texto em voz alta, em um trecho curto. Os filhos que sabem ler podem se revezar.
- Perguntar. Faça três perguntas simples: O que o texto diz? O que ele ensina sobre Deus? O que ele ensina sobre nós?
- Aplicar. Peça uma aplicação concreta, em uma frase, para aquela semana.
- Orar juntos, com os filhos participando, e fechar com o Pai-Nosso ou outra oração conhecida.
Esse padrão é uma versão familiar do que se faz em como fazer um devocional. Não precisa ser perfeito, nem solene demais.
Que texto ler?
Para famílias com filhos pequenos, os relatos bíblicos funcionam bem: criação, Noé, Abraão, José, Moisés, Davi, Daniel, e depois os evangelhos. Para adolescentes, vale ler um livro inteiro, como Marcos ou Tiago, um trecho por vez. Para todas as idades, os Salmos e Provérbios têm trechos curtos e fortes.
Leia livros inteiros, em ordem, em vez de saltar entre versículos soltos. Assim os filhos aprendem a ver a Bíblia como uma história contínua. Se precisar de ajuda para decidir a ordem, veja por onde começar a ler a Bíblia.
Lembre-se de que toda a Escritura aponta para Cristo (Lucas 24.27). Quando ler a história de Davi e Golias, por exemplo, ensine que ela conta como Deus livra o seu povo, e não só que somos corajosos. Não faça das histórias bíblicas apenas fábulas de comportamento. O centro é o que Deus fez, e a lição moral vem como consequência.
Como adaptar a cada idade?
| Idade | Como fazer |
|---|---|
| Até 5 anos | Histórias curtas, repetidas, com gestos e perguntas simples; orações breves |
| 6 a 11 anos | Leitura em voz alta, perguntas diretas, memorização de versículos e do Breve Catecismo |
| 12 a 17 anos | Conversa em vez de aula, perguntas honestas, estudo de um livro, espaço para dúvidas |
| Casal sem filhos | Mesmo roteiro, com mais tempo para discutir e orar |
Na adolescência, a melhor coisa é ouvir mais do que falar. Se o jovem fizer uma pergunta difícil, receba com seriedade, e se não souber responder, diga: "Vamos descobrir juntos", e leve a dúvida ao pastor ou ao estudo bíblico. Perguntas sobre trechos que parecem contraditórios aparecem cedo, e há um método em o que fazer quando um texto parece contraditório.
O Catecismo ajuda?
Muito. O Breve Catecismo de Westminster é um instrumento feito justamente para ensinar a fé em perguntas e respostas curtas, e se presta bem ao ensino em família. A primeira pergunta pergunta qual é o fim principal do homem, e responde: glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. Aprender uma pergunta por semana, em casa, dá às crianças um vocabulário de fé que as acompanha pela vida.
O que fazer quando dá errado?
Vai dar errado, em algum dia: criança irritada, adolescente calado, pai cansado. Algumas orientações:
- Não desista. Retome no dia seguinte, sem fazer drama.
- Seja o primeiro a pedir perdão quando perder a paciência. Isso também ensina o evangelho.
- Não use a leitura para dar sermão nem para corrigir um filho. Se a ocasião for de repreensão, use outro momento.
- Seja honesto sobre as próprias falhas. Os filhos percebem hipocrisia, e a Bíblia mostra pais imperfeitos que dependem da graça.
Se o lar tem tensões graves, conflitos, violência ou sofrimento sério, procure o pastor e, quando for o caso, ajuda profissional. Veja como falar com a igreja em fale conosco.
Estudo em família e igreja: duas coisas que se somam
O culto doméstico não substitui o culto público. O autor de Hebreus manda: "não deixemos de congregar-nos" (Hebreus 10.25). Uma boa prática é conversar em casa sobre o texto pregado no domingo, perguntando o que cada um entendeu. Assim a família ouve a Palavra duas vezes. Os horários dos cultos e da Escola Bíblica estão em cultos, e há atividades para as diversas idades em ministérios.
Perguntas frequentes
Quanto tempo deve durar o estudo bíblico em família?
Dez a vinte minutos, de acordo com a idade dos filhos. Com crianças pequenas, até menos. O importante é a constância e a atenção, e não a duração.
Como ensinar a Bíblia a crianças pequenas?
Com histórias curtas, linguagem simples, perguntas fáceis e muita repetição. Mostre sempre que as histórias falam do que Deus fez e de Cristo, e não apenas de bom comportamento.
Preciso ser teólogo para conduzir o culto doméstico?
Não. Basta ler a Bíblia, fazer perguntas simples e orar. Se surgir uma dúvida que você não sabe responder, diga isso e procure a resposta com o pastor ou em um estudo bíblico.
E se meu cônjuge não for cristão?
Faça o que for possível, com respeito: ore com os filhos, leia histórias bíblicas, mostre o exemplo. Paulo reconhece que o cônjuge crente pode santificar o lar (1 Coríntios 7.14). Procure o conselho do pastor.