Como a Bíblia chegou até nós: cópias, cânon e traduções

Como a Bíblia chegou até nós? Veja a história dos manuscritos, a formação do cânon e das traduções até o português, e por que o texto é confiável.

Igreja Presbiteriana Pioneira · leitura de 6 min

A Bíblia que você tem em português chegou até aqui por um caminho longo: foi escrita em hebraico, aramaico e grego, copiada à mão por séculos, reconhecida pela igreja como Escritura e traduzida para outras línguas, inclusive o português. Compreender esse percurso responde a uma dúvida comum: "como sei que o texto não foi alterado?". Este artigo percorre cada etapa, com honestidade sobre o que sabemos e sobre o que é debatido.

Em que línguas a Bíblia foi escrita?

A maior parte do Antigo Testamento foi escrita em hebraico, com pequenos trechos em aramaico (por exemplo, partes de Daniel e Esdras). O Novo Testamento foi escrito em grego, a língua comum do mundo mediterrâneo no primeiro século. Por isso, quando um estudioso fala do "texto original", refere-se a essas línguas.

A Confissão de Fé de Westminster, no capítulo 1, afirma que o Antigo Testamento em hebraico e o Novo em grego, inspirados por Deus e preservados por seu cuidado singular, são autênticos. E que, como o povo de Deus tem direito de acesso às Escrituras, elas devem ser traduzidas para a língua de cada povo. É justamente essa convicção que está por trás da história das traduções.

Como o texto foi copiado?

Não existia imprensa. Cada exemplar era copiado à mão, por escribas treinados. Os judeus tinham um cuidado enorme com a cópia do Antigo Testamento, e o NT circulou em milhares de cópias gregas espalhadas por regiões diferentes.

Isso gera um fato interessante: quanto mais cópias independentes existem, mais fácil é comparar e descobrir um erro de escriba em uma delas. É como se vários alunos copiassem o mesmo texto: ao comparar todas as folhas, a divergência de uma só fica evidente.

Houve, claro, variações de cópia: palavras trocadas, linhas puladas, ortografia. Os estudiosos chamam esse trabalho de crítica textual: comparar as cópias para reconstituir o texto mais próximo do original. A grande maioria das variações é pequena e não afeta nenhum ensino cristão. Algumas passagens, poucas, têm variantes que valem uma nota de rodapé, e as boas Bíblias indicam isso com honestidade. Nenhuma doutrina da fé cristã depende de um texto discutido.

O achado dos Manuscritos do Mar Morto, no século XX, trouxe cópias de livros do Antigo Testamento muito mais antigas do que as que se conheciam. Um rolo de Isaías encontrado ali mostrou que o texto havia sido transmitido com notável fidelidade. Isso reforçou a confiança no cuidado dos copistas.

Como se formou o cânon?

"Cânon" vem de uma palavra que significa "régua" ou "regra". É a lista dos livros reconhecidos como Escritura. Uma pergunta frequente é se a igreja "escolheu" os livros. A visão reformada é que a igreja reconheceu, e não criou, o que já era Palavra de Deus: um livro não é Escritura por ter sido aprovado, e sim foi aprovado por ser Escritura.

Antigo Testamento

Os judeus já reconheciam a Lei, os Profetas e os Escritos como Escritura no tempo de Jesus. Quando ele fala de "a lei de Moisés, os profetas e os salmos" (Lucas 24.44), tem em mente o conjunto aceito. Jesus e os apóstolos citam o Antigo Testamento como autoridade final, e não citam os livros apócrifos como Escritura.

Novo Testamento

Os livros do Novo Testamento foram escritos no primeiro século e circularam nas igrejas. A igreja reconheceu aqueles que tinham origem apostólica (escritos por apóstolos ou por seus colaboradores próximos), eram usados amplamente nas igrejas e estavam de acordo com a fé recebida. No século IV, listas com os mesmos 27 livros que temos hoje já eram aceitas amplamente. A discussão sobre alguns livros menores, como Hebreus, Tiago e Apocalipse, levou tempo, mas não houve "reunião secreta" que tenha inventado o cânon, como se afirma às vezes.

E os livros apócrifos?

Alguns livros judaicos do período entre os testamentos, como Tobias, Judite e Macabeus, aparecem em certas Bíblias. As igrejas reformadas não os recebem como Escritura, e a Confissão de Westminster os trata como obras humanas, sem autoridade de regra de fé. É uma diferença real entre tradições cristãs, e cabe explicá-la com respeito, sem hostilidade. Esse tema também aparece em quantos livros tem a Bíblia.

Como a Bíblia foi traduzida?

A tradução da Bíblia começou antes de Cristo. Judeus de fala grega traduziram o Antigo Testamento para o grego, tradução conhecida como Septuaginta, muitas vezes citada nos escritos do Novo Testamento. Mais tarde, o texto foi vertido para o latim, na chamada Vulgata, atribuída a Jerônimo, que serviu a igreja ocidental por muitos séculos.

Na época da Reforma Protestante, no século XVI, a convicção de que o povo deve ler a Bíblia na própria língua impulsionou traduções para o alemão, o inglês e outras línguas. A imprensa, recém-inventada, facilitou a circulação.

E o português?

A primeira Bíblia completa em português traduzida diretamente das línguas originais é obra de João Ferreira de Almeida, no século XVII. A tradução dele foi revista muitas vezes, e daí nascem as famílias de textos conhecidas hoje, como a Almeida Revista e Corrigida, a Revista e Atualizada e a Corrigida Fiel. Há também traduções independentes, como a Nova Versão Internacional. A diferença entre elas é o assunto de qual tradução da Bíblia usar em português.

Então posso confiar no texto que tenho?

Sim, com a consciência de que confiar é diferente de ignorar a história. A transmissão do texto bíblico foi muito bem documentada. As traduções responsáveis partem dos manuscritos e comparam as cópias. Pequenas diferenças existem e são reconhecidas abertamente, mas a mensagem e o ensino permanecem os mesmos.

Há ainda uma razão teológica: o Senhor prometeu que a sua palavra permanece. "Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra do nosso Deus permanece eternamente" (Isaías 40.8). E Jesus disse: "Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não hão de passar" (Mateus 24.35). A fé cristã crê que Deus, que inspirou o texto, cuidou também de preservá-lo.

Quem escreveu cada livro e como ele foi inspirado é tema de quem escreveu a Bíblia. Se você quer ouvir o texto explicado, a pregação da igreja é feita livro por livro: veja pregação.

Perguntas frequentes

A Bíblia foi alterada ao longo dos séculos?

Houve erros de cópia, como era de esperar em textos copiados à mão, mas a comparação de milhares de manuscritos permite identificá-los e reconstituir o texto. As diferenças são pequenas e não alteram nenhum ensino cristão.

Quem decidiu quais livros entram na Bíblia?

A igreja reconheceu os livros que já tinham autoridade divina, não os inventou nem os escolheu por votação. No caso do Novo Testamento, pesaram a origem apostólica, o uso nas igrejas e a coerência com a fé recebida.

Por que a Bíblia protestante não tem os livros apócrifos?

Porque os judeus não os reconheciam como Escritura, e Jesus e os apóstolos não os citam como tal. Podem ter valor histórico, mas não são considerados inspirados.

Quem traduziu a Bíblia para o português?

A primeira Bíblia completa traduzida das línguas originais foi a de João Ferreira de Almeida, no século XVII. Desde então, ela foi revista várias vezes, e surgiram outras traduções.