Os Dez Mandamentos hoje: o que são e como se aplicam
Os Dez Mandamentos valem hoje? Veja o uso da Lei na vida do cristão, mandamento por mandamento, segundo a fé reformada.
Igreja Presbiteriana Pioneira · leitura de 8 min
Os Dez Mandamentos são o resumo da lei moral de Deus, dado a Israel no monte Sinai e registrado em Êxodo 20 e Deuteronômio 5. Eles continuam valendo para o cristão, não como caminho para ser salvo, mas como regra de vida para quem já foi salvo pela graça em Cristo. Cada mandamento diz o que Deus exige e, ao mesmo tempo, o que ele proíbe. Este artigo percorre os dez, explica a divisão em duas tábuas e mostra como aplicá-los sem legalismo e sem frouxidão.
De onde vêm os Dez Mandamentos?
Deus os pronunciou ao povo e depois os escreveu em duas tábuas de pedra (Êxodo 20.1-17; 31.18). O contexto importa: o povo já havia sido libertado do Egito. O prefácio diz: "Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão" (Êxodo 20.2). Primeiro a redenção, depois a lei. Obedecer é resposta de quem foi resgatado, e não preço para ser resgatado.
A lei moral, segundo a tradição reformada, não nasceu no Sinai: ela expressa o caráter eterno de Deus e foi escrita no coração do primeiro homem na criação. No Sinai, foi declarada de forma resumida. A Confissão de Fé de Westminster, no capítulo 19, ensina que os Dez Mandamentos são o resumo dessa lei e que ela obriga a todos, justificados e não justificados. Para a relação geral entre lei moral, cerimonial e civil, veja o que é a Lei na Bíblia.
Duas tábuas: amor a Deus e amor ao próximo
Jesus resumiu a lei assim: "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração [...] e amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mateus 22.37-39). Essa divisão corresponde às duas tábuas:
| Tábua | Mandamentos | Tema |
|---|---|---|
| Primeira | 1 a 4 | Deveres para com Deus |
| Segunda | 5 a 10 | Deveres para com o próximo |
Quem ama a Deus, obedece; quem ama o próximo, não o prejudica. Paulo escreve que "o amor é o cumprimento da lei" (Romanos 13.10). Amor e lei não se opõem: o amor é a motivação e a lei mostra a forma.
Os dez, um a um
1. "Não terás outros deuses diante de mim" (Êxodo 20.3)
Só o Senhor deve ser adorado, temido e amado acima de tudo. Isso inclui os ídolos que não são de pedra: dinheiro, prazer, reconhecimento, a própria pessoa. A pergunta é: o que ocupa o lugar de Deus no meu coração?
2. Não farás imagem de escultura (Êxodo 20.4-6)
Deus proíbe adorá-lo por meio de imagens e exige que o culto siga o que ele ordenou. É a base do que a tradição reformada chama de princípio regulador do culto: a forma de adorar não é decidida pelo gosto da igreja, mas pela Palavra de Deus. A Confissão de Westminster trata disso no capítulo 21. Esse princípio é o motivo de a igreja valorizar a leitura da Bíblia, a pregação, a oração, o canto e os sacramentos como elementos do culto.
3. Não tomarás o nome do Senhor em vão (Êxodo 20.7)
O nome de Deus é santo. O mandamento alcança o palavrão e o juramento falso, mas também o uso leviano da fé, como dizer "Deus me disse" para dar peso a uma opinião, ou invocar o nome divino sem reverência.
4. Lembra-te do dia de sábado (Êxodo 20.8-11)
Reserva-se um dia em sete para o descanso e o culto. A igreja cristã, desde o tempo dos apóstolos, passou a reunir-se no primeiro dia da semana, em memória da ressurreição (Atos 20.7; Apocalipse 1.10, "dia do Senhor"). A posição reformada é que o princípio de um dia em sete permanece, agora no dia do Senhor, e que ele é para o bem do homem: "O sábado foi feito por causa do homem" (Marcos 2.27). Cristãos de outras tradições entendem o tema de modo diferente, e vale o respeito mútuo. O pano de fundo é descansar, adorar e servir.
5. Honra teu pai e tua mãe (Êxodo 20.12)
Paulo lembra que é o primeiro mandamento com promessa e o repete aos filhos (Efésios 6.1-3). Honrar não é obedecer cegamente a qualquer ordem, mas respeitar, cuidar e agradecer. O mandamento fala também de quem tem autoridade legítima sobre nós.
6. Não matarás (Êxodo 20.13)
Protege a vida, que é dom de Deus, criada à sua imagem. Jesus aprofunda: a raiz do assassinato está na ira e no desprezo do coração (Mateus 5.21-22). O mandamento alcança o cuidado com a própria saúde e com a vida do próximo.
7. Não adulterarás (Êxodo 20.14)
Protege o casamento e a pureza sexual. Também aqui Jesus vai ao coração: quem olha para uma mulher para a cobiçar já adulterou com ela no coração (Mateus 5.27-28). O mandamento ordena fidelidade e castidade, no casamento e fora dele.
8. Não furtarás (Êxodo 20.15)
Protege a propriedade e ordena o trabalho honesto e a generosidade. Inclui sonegar, enganar em negócios, não pagar o que se deve e explorar o trabalhador.
9. Não dirás falso testemunho (Êxodo 20.16)
Protege a verdade e a reputação do próximo. Vale para o tribunal, mas também para a fofoca, a calúnia e a mentira do dia a dia.
10. Não cobiçarás (Êxodo 20.17)
É o único que fala apenas do coração: desejar o que é do outro. Mostra que a lei de Deus não se contenta com a aparência. Foi por este mandamento que Paulo se viu pecador (Romanos 7.7).
Podemos cumprir os Dez Mandamentos?
Não perfeitamente. A depravação total, a doutrina que ensina que o pecado afeta todo o ser humano, mostra que ninguém os cumpre de coração por si mesmo. A lei mostra o pecado e conduz a Cristo (Gálatas 3.24). Só ele os cumpriu perfeitamente, e a justiça dele é atribuída a quem crê. Isso se chama justificação: Deus declara justo o pecador que confia em Cristo (Romanos 3.28).
Mas o evangelho não termina aí. O mesmo Espírito que une o crente a Cristo o capacita, aos poucos, a obedecer. Esse processo é a santificação: o crescimento na vida de santidade, sempre parcial nesta vida, mas real. Obedecer aos mandamentos é, então, fruto da graça, e não motivo para orgulho. A Confissão de Westminster ensina que a lei é regra de vida para o crente, que a usa em gratidão (capítulo 19).
Como aplicar os mandamentos hoje, sem legalismo?
- Leia os mandamentos como positivos e negativos. "Não furtarás" também exige trabalhar e ajudar o necessitado.
- Olhe para o coração. Jesus mostrou que a lei não se limita ao ato externo.
- Cobre de si antes de cobrar dos outros. Os mandamentos são para examinar a própria vida.
- Vá a Cristo ao falhar. Quando a consciência acusa, a resposta é arrependimento e fé no perdão, e não desespero nem desculpa.
- Ensine aos filhos. Deus mandou que as palavras da lei fossem repetidas em casa (Deuteronômio 6.6-7). Veja ideias práticas em como estudar a Bíblia em família.
Legalismo e libertinagem: dois erros opostos
O legalismo transforma os mandamentos em meio de salvação ou em lista de regras extras. A libertinagem usa a graça como licença para pecar. Paulo rejeita os dois: "Permaneceremos no pecado, para que a graça seja abundante? De modo nenhum!" (Romanos 6.1-2). A graça de Deus nos salva da condenação da lei e nos liberta para obedecê-la com alegria.
A tradição reformada ensina que as obras do crente, feitas por graça e em fé, agradam a Deus, embora nunca mereçam a salvação. Tudo, do começo ao fim, é para a glória de Deus, o Soli Deo Gloria.
Se você quer ouvir esses textos explicados em sequência, a pregação da igreja trata deles com regularidade; confira em pregação e em cultos. E, para entender melhor o que a igreja ensina sobre fé e vida, veja no que cremos.
Perguntas frequentes
Os Dez Mandamentos ainda valem para os cristãos?
Sim, como regra de vida. Não salvam, pois a salvação é pela graça mediante a fé em Cristo, mas mostram o que agrada a Deus e orientam quem foi salvo. Jesus aprofundou, e não revogou, a lei moral.
Quais são os Dez Mandamentos?
Não ter outros deuses; não fazer imagens para adorar; não tomar o nome de Deus em vão; guardar o dia do Senhor; honrar pai e mãe; não matar; não adulterar; não furtar; não dar falso testemunho; e não cobiçar (Êxodo 20.1-17).
Guardar o sábado ainda é obrigatório?
A igreja reformada entende que o princípio de um dia em sete para o culto e o descanso permanece, celebrado no primeiro dia da semana, o dia do Senhor, por causa da ressurreição. Há cristãos que entendem o assunto de forma diferente, e o respeito é devido.
Quem descumpre um mandamento perde a salvação?
Não. Os que são de Cristo falham, mas Deus os guarda e os leva ao arrependimento. É o que a tradição reformada chama de perseverança dos santos: quem é de Deus é guardado por ele até o fim (João 10.28-29).