Por que uma igreja precisa de confissão de fé? Entenda

Por que uma igreja precisa de confissão de fé? Veja as razões bíblicas e práticas, e a resposta à objeção de que basta a Bíblia.

Igreja Presbiteriana Pioneira · leitura de 7 min

Uma igreja precisa de confissão de fé porque toda igreja ensina alguma coisa, e é melhor que esse ensino esteja declarado, examinado à luz da Bíblia e aberto à correção do que escondido na cabeça de cada pregador. A confissão não compete com a Escritura: ela é uma resposta organizada e pública à pergunta "o que esta igreja entende que a Bíblia ensina?".

Mas a Bíblia não basta? Por que um documento a mais?

Esta é a objeção mais comum, e é uma boa objeção. A tradição reformada concorda que a Bíblia é suficiente: é a única regra de fé e prática (veja o que é Sola Scriptura). O ponto é outro.

Todos os grupos que dizem "só a Bíblia" chegam a conclusões diferentes sobre o que a Bíblia diz. Os que negam a divindade de Cristo também citam versículos. Quando alguém afirma "eu só creio na Bíblia", a pergunta seguinte é inevitável: "E o que a Bíblia diz sobre quem é Jesus?" Ao responder, a pessoa já está confessando uma fé, só que sem escrevê-la.

A confissão faz isso às claras. Ela diz: "entendemos que a Escritura ensina estas coisas, e eis os textos em que nos apoiamos". Assim qualquer pessoa pode conferir, discordar e debater com a própria Bíblia na mão.

A Bíblia já pede que se confesse a fé?

Sim. O Novo Testamento está cheio de fórmulas curtas de fé que a igreja primitiva repetia:

  • "Jesus é o Senhor" (1Coríntios 12.3; Romanos 10.9).
  • A grande declaração sobre Cristo em 1Timóteo 3.16, que muitos estudiosos reconhecem como um trecho de hino ou confissão primitiva.
  • A ordem de batizar "em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo" (Mateus 28.19), que já traz uma estrutura trinitária.
  • A exortação de Judas 3: "batalhardes pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos".
  • O mandamento de Paulo a Timóteo: "Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste" (2Timóteo 1.13).

Há, portanto, um modelo de sã doutrina que deve ser guardado e transmitido. A confissão de fé é a forma que a igreja encontrou para guardar esse depósito de modo claro.

Quais são as razões práticas para ter uma confissão?

1. Proteção contra o erro. Paulo avisa que "virá tempo em que não suportarão a sã doutrina" (2Timóteo 4.3). Uma igreja que declara em que crê tem como reconhecer quando um ensino se afasta do evangelho. Sem um padrão, o critério passa a ser o carisma de quem fala.

2. Proteção dos membros. O irmão que chega a uma igreja merece saber, de antemão, o que ela ensina sobre o batismo, a ceia, a salvação e o governo. Isso é honestidade. Ninguém deve ser surpreendido depois de anos.

3. Unidade que não depende de pessoas. Quando o pastor muda, a igreja não precisa mudar de doutrina. A confissão dá continuidade ao ensino entre gerações.

4. Ensino ordenado. A Bíblia não é um manual sistemático; é uma coleção de livros de vários gêneros. Uma confissão organiza o que ela ensina por temas (Deus, homem, pecado, Cristo, igreja...), o que ajuda muito quem está aprendendo.

5. Responsabilidade do ministério. Os oficiais da igreja assumem diante de todos o compromisso de ensinar o que está declarado. Quem foge disso pode ser corrigido com base num padrão conhecido, e não por antipatia pessoal.

Confissão e credo são a mesma coisa?

São parentes. O credo (como o Credo Apostólico e o Credo Niceno) é uma declaração curta, normalmente recitada no culto, que resume as verdades essenciais comuns a todos os cristãos históricos. A confissão é mais longa e detalhada; ela diz o que uma tradição específica entende sobre temas em que cristãos sérios divergem, como o batismo ou a eleição.

A Confissão de Fé de Westminster, por exemplo, afirma tudo o que os credos antigos afirmam e vai além, em pontos como o governo da igreja e os sacramentos. Veja o panorama em Confissão de Fé de Westminster, o que é.

Uma confissão não engessa a igreja?

É um risco real, e vale a honestidade: uma confissão pode virar um papel guardado na gaveta, repetido sem entendimento, ou um instrumento para sufocar perguntas. Isso é mau uso, e não é culpa do documento.

A tradição reformada se protege disso de duas formas:

  • A Escritura continua acima da confissão. A própria Confissão de Westminster declara que concílios e credos podem errar e que só a Escritura é regra infalível. Se alguém mostra, pela Bíblia, que algum ponto está errado, a igreja deve estar disposta a reexaminá-lo.
  • A pergunta é bem-vinda. Igreja saudável é aquela em que se pode perguntar "onde a Bíblia ensina isso?" e receber um texto, e não uma bronca.

Uma igreja sem confissão escrita não é livre de padrões; apenas tem um padrão não escrito, mais difícil de examinar.

Como saber em que uma igreja realmente crê?

Uma sugestão prática para quem está procurando igreja:

  1. Pergunte se a igreja tem uma declaração de fé e leia com calma.
  2. Observe se a pregação corresponde ao que está declarado. O texto bíblico é explicado ou usado só como ponto de partida?
  3. Confira se os textos bíblicos citados realmente dizem o que se afirma.
  4. Converse com o pastor sobre pontos em que você tenha dúvida.

Na IP Pioneira, o padrão é a Confissão de Fé de Westminster e os catecismos, e o resumo está em no que cremos. A pregação segue o método expositivo, que explica o texto bíblico no seu contexto; você pode ouvir exemplos em pregações.

Confissão de fé e vida cristã: qual a relação?

Confessar a fé não termina em palavras. Tiago lembra que "a fé, se não tiver obras, por si só está morta" (Tiago 2.17). A confissão pública precisa ser acompanhada de uma vida que a confirme: culto, oração, serviço, arrependimento. Ainda assim, a ordem importa: primeiro se sabe em quem e no que se crê, depois se vive aquilo. Por isso o estudo da doutrina é parte do discipulado, tema do artigo por que estudar doutrina muda a vida prática.

Que cuidados a igreja deve ter ao usar a sua confissão?

Uma confissão bem usada é como um mapa: orienta, mas não substitui a viagem. Alguns cuidados ajudam a manter o equilíbrio.

  • Ensinar o que ela diz, e não só exigir assinatura. Quando o documento só é citado em cerimônias, ele não forma ninguém. É preciso explicá-lo, capítulo por capítulo, com os textos bíblicos ao lado.
  • Distinguir o essencial do secundário. Nem tudo o que a igreja crê tem o mesmo peso. A divindade de Cristo e a justificação pela fé estão no centro; formas de organização estão mais à margem.
  • Manter a pergunta aberta. Quem questiona com sinceridade merece resposta paciente, e não suspeita.
  • Manter o coração aquecido. Ortodoxia sem amor é o que Jesus censurou em Éfeso: "abandonaste o teu primeiro amor" (Apocalipse 2.4).
  • Rever tudo à luz da Palavra. Se a Escritura mostra um erro, a igreja o corrige, e isso é uma honra para a confissão, e não uma derrota.

Perguntas frequentes

Se só a Bíblia basta, por que a igreja tem confissão de fé?

Porque a Bíblia basta como regra, mas a igreja ainda precisa dizer como a entende. A confissão é um resumo declarado e revisável do ensino bíblico, e não um acréscimo a ele.

A confissão de fé substitui a Bíblia?

Não. Uma confissão fiel ao método reformado coloca a Escritura acima de qualquer documento humano. Cada afirmação traz textos bíblicos para que o leitor possa conferir.

Igrejas sem confissão de fé escrita são piores?

Não necessariamente. Muitas igrejas piedosas têm declarações de fé curtas ou não escritas. O argumento é que declarar por escrito ajuda a clareza, a unidade e a correção do ensino.

Qual é a diferença entre credo e confissão?

O credo é breve e resume o essencial da fé cristã comum a todos. A confissão é mais extensa e detalha também pontos próprios de uma tradição, como o batismo, a ceia e o governo da igreja.