O que a Confissão de Fé diz sobre a Escritura Sagrada
O que a Confissão de Fé de Westminster diz sobre a Escritura? Veja o capítulo 1 explicado sobre inspiração, suficiência, clareza e interpretação.
Igreja Presbiteriana Pioneira · leitura de 6 min
A Confissão de Fé de Westminster dedica seu primeiro capítulo, "Da Santa Escritura", a dizer o que a igreja crê sobre a Bíblia: que ela é a Palavra de Deus escrita, inspirada, suficiente para a salvação e a vida, suficientemente clara naquilo que é necessário e a regra final de fé e prática. Não por acaso é o capítulo que abre o documento: tudo o mais depende de saber onde Deus nos fala.
Por que a Confissão começa pela Escritura?
Porque a doutrina que a Confissão apresenta não vem da razão humana nem da tradição, mas da revelação. Antes de dizer quem é Deus, quem é o homem e como somos salvos, a Confissão precisa dizer em que fonte se apoia. Por isso o primeiro capítulo é uma espécie de "fundamento do fundamento".
Esse ponto é central para a tradição reformada, que o resume com a expressão Sola Scriptura. Veja também o contexto do documento em Confissão de Fé de Westminster.
O que o capítulo 1 afirma, em resumo?
O capítulo tem dez seções. Resumindo (em paráfrase, e não em citação literal):
- A necessidade da Escritura. A luz da natureza e as obras da criação e da providência mostram a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, de modo que os homens ficam sem desculpa, mas não bastam para dar o conhecimento de Deus e de sua vontade necessário para a salvação. Por isso Deus quis revelar-se e, depois, registrar tudo por escrito.
- Os livros da Escritura. Reúne os livros do Antigo e do Novo Testamento, que são "a Palavra de Deus escrita".
- Os livros apócrifos. A Confissão não os reconhece como inspirados, nem como parte do cânon.
- A autoridade. A autoridade da Escritura não depende do testemunho de homem ou igreja, mas de Deus, seu autor.
- A convicção. Podemos ser movidos pelo testemunho da igreja a estimar a Escritura, mas a plena persuasão de sua autoridade vem do testemunho interno do Espírito Santo.
- A suficiência. Todo o conselho de Deus, sobre o que é necessário para a sua glória, a salvação, a fé e a vida, está expresso na Escritura, ou pode ser deduzido dela por boa e necessária consequência.
- A clareza. Nem todas as coisas na Escritura são igualmente claras, mas o que é necessário para a salvação é exposto de modo que os não instruídos, usando os meios ordinários, podem alcançar entendimento suficiente.
- A preservação e as línguas originais. O Antigo Testamento em hebraico e o Novo em grego, preservados por Deus, são a autoridade final; mas, como o povo precisa da Bíblia, ela deve ser traduzida para a língua de cada povo.
- A interpretação da Escritura pela Escritura. A regra infalível para interpretar a Escritura é a própria Escritura; passagens obscuras são esclarecidas por outras mais claras.
- O juiz supremo. O juiz supremo de todas as controvérsias religiosas é o Espírito Santo falando na Escritura.
Onde a Bíblia ensina que ela é inspirada?
A palavra-chave é 2Timóteo 3.16: "Toda a Escritura é inspirada por Deus" (literalmente, "soprada por Deus"). Outros textos:
- 2Pedro 1.20-21: os autores humanos falaram "movidos pelo Espírito Santo".
- 1Tessalonicenses 2.13: a palavra pregada foi recebida "não como palavra de homens, e sim como, de fato é, a palavra de Deus".
- Mateus 5.18: Jesus afirma que nem um jota ou til passará da lei.
- João 10.35: "a Escritura não pode ser anulada."
Isso quer dizer que a Escritura tem dois autores: Deus e o autor humano, que usou seu estilo, vocabulário e contexto, enquanto o Espírito garantiu que o resultado fosse a Palavra de Deus sem erro.
O que significa dizer que a Escritura é suficiente?
Significa que a Bíblia contém tudo o que precisamos para conhecer a Deus, ser salvos e viver para a glória dele. Não precisamos de novas revelações para completar o evangelho. Judas 3 diz que a fé foi "uma vez por todas entregue aos santos".
Isso não quer dizer que a Bíblia seja um manual para tudo, como engenharia ou medicina. Ela é suficiente para o que se propõe a ensinar: a fé e a vida. A Confissão reconhece que há circunstâncias do culto e do governo da igreja que devem ser ordenadas pela prudência cristã, à luz das regras gerais da Palavra.
A Bíblia é clara ou difícil?
Os dois. A própria Escritura reconhece: Pedro diz que, nas cartas de Paulo, "há certas coisas difíceis de entender" (2Pedro 3.16). Mas o caminho da salvação é claro: "o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símplices" (Salmo 19.7).
A consequência prática é que o cristão comum deve ler a Bíblia pessoalmente, e a igreja deve ensiná-la com seriedade. A clareza não torna dispensáveis os mestres, e sim reconhece que o essencial pode ser entendido por todos.
Como a Confissão manda interpretar a Bíblia?
A principal regra está na seção 9: a Escritura interpreta a Escritura. Algumas orientações que decorrem daí:
- Leia o texto no seu contexto imediato e no contexto do livro.
- Compare passagens: o que parece obscuro aqui é claro ali.
- Considere o gênero literário: poesia, lei, história, profecia e carta têm regras próprias.
- Busque o sentido que o autor original queria transmitir, e como o texto aponta para Cristo (Lucas 24.27).
- Ore pedindo a iluminação do Espírito (Salmo 119.18).
- Leia em comunhão com a igreja, sem soberba.
É essa visão que fundamenta a pregação expositiva, que explica o texto na ordem em que ele aparece. Exemplos em pregações.
A Confissão afirma que a Bíblia não tem erros?
A Confissão afirma a infalível verdade e divina autoridade da Escritura (seção 5). É a posição histórica reformada: a Bíblia, como Palavra de Deus, não erra naquilo que afirma. Isso não impede a leitura honesta de passagens difíceis, de diferenças de estilo ou de questões de tradução; a tradição reformada sempre trabalhou essas questões com estudo, e não com medo. Quando um texto é difícil, o caminho é estudar mais e, se for necessário, dizer "não sabemos", e não torcer o texto.
E o que muda para o cristão comum?
- Confiança. Podemos descansar na Palavra de Deus, em vez de depender de opiniões.
- Dedicação. Ler, ouvir e meditar a Bíblia deve ser prioridade diária.
- Humildade. A Bíblia nos julga, e não o contrário.
- Unidade. Em torno da Palavra, cristãos de diferentes origens se encontram.
- Discernimento. Qualquer ensino, inclusive o da igreja, é examinado pela Escritura (Atos 17.11).
Se quiser estudar a Bíblia em grupo, há estudo às quintas, às 20h. Veja cultos. Sobre a importância de um padrão confessional, veja por que uma igreja precisa de confissão de fé.
Perguntas frequentes
O que a Confissão de Westminster diz sobre a Bíblia?
Diz que a Bíblia é a Palavra de Deus escrita, inspirada, de autoridade suprema, suficiente para a fé e a vida, clara no que é essencial e interpretada por si mesma.
Quais livros a Confissão reconhece como Escritura?
Os 66 livros do Antigo e do Novo Testamento. A Confissão não reconhece os livros apócrifos como inspirados.
Quem é o juiz supremo das controvérsias religiosas?
Segundo a Confissão, é o Espírito Santo falando na Escritura, e não concílios, tradições ou líderes.
A Confissão diz que a Bíblia explica tudo?
Não. Diz que a Bíblia é suficiente para a glória de Deus, a salvação, a fé e a vida. Não pretende ser manual de ciência, e algumas passagens exigem estudo cuidadoso.