O que é a Grande Comissão e o que ela pede da igreja

O que é a Grande Comissão em Mateus 28? Entenda a ordem de Jesus de fazer discípulos, batizar e ensinar, e o que ela pede de cada cristão.

Igreja Presbiteriana Pioneira · leitura de 7 min

A Grande Comissão é a ordem que Jesus deu aos seus discípulos pouco antes de subir ao céu, registrada em Mateus 28.18-20. Em resumo, é o mandato para fazer discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-os a guardar tudo o que Cristo ordenou. É a missão permanente da igreja até a volta do Senhor.

O nome não está na Bíblia; foi dado pela tradição cristã para destacar a importância dessas palavras. Quem lê o texto com atenção percebe que ele é mais exigente, e mais bonito, do que a frase "ir e pregar" costuma sugerir.

O que Jesus disse exatamente?

O texto completo é este:

"Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias, até à consumação do século." (Mateus 28.18-20)

Repare na estrutura. Antes da ordem vem uma declaração: toda a autoridade pertence a Cristo. Depois da ordem vem uma promessa: ele estará com os seus todos os dias. A missão fica entre duas âncoras, a autoridade de Jesus e a presença de Jesus. Ninguém sai para a missão por conta própria nem com as próprias forças.

Qual é o verbo principal da ordem?

No texto grego, o único verbo no imperativo é "fazei discípulos". "Ir", "batizar" e "ensinar" são ações que acompanham e explicam como se faz isso. Em outras palavras, o alvo da Grande Comissão não é gerar decisões momentâneas nem estatísticas de alcance, e sim formar discípulos: pessoas que seguem a Cristo, aprendem dele e vivem sob o seu senhorio.

Isso tem consequências práticas:

  • Ir significa tomar a iniciativa. A fé cristã não espera que as pessoas venham sozinhas; ela vai ao encontro delas, perto ou longe.
  • Batizar significa que o discípulo é incorporado à igreja visível, a comunidade da aliança. Ninguém é discípulo isolado.
  • Ensinar significa que o trabalho não termina na conversão. Ensinar a "guardar tudo" é tarefa de uma vida inteira, e é por isso que a pregação e o ensino regulares são parte da missão, não um assunto à parte.

A Grande Comissão é só para missionários?

Não. Mas também não significa que todo cristão deva fazer exatamente a mesma coisa. A Bíblia mostra diversidade de chamados dentro de uma só missão. Em 1 Coríntios 12, Paulo compara a igreja a um corpo com muitos membros: nem todos são olho, nem todos são mão, e cada parte é necessária.

Na prática, a Comissão se cumpre assim:

  1. Alguns são enviados para outras culturas e países. Veja o artigo sobre o que é missão transcultural.
  2. Outros sustentam e oram por quem foi enviado. Veja como orar por missionários e o que é a oferta missionária.
  3. Todos testemunham onde vivem: na família, na vizinhança, no trabalho. O artigo como falar de Jesus para um amigo trata desse passo cotidiano.
  4. A igreja local ensina e batiza, por meio dos ministros e do Conselho, que cuidam da pregação e dos sacramentos.

Ninguém carrega a Comissão sozinho. A igreja inteira a recebe, e cada membro tem uma parte.

O que "todas as nações" quer dizer?

A palavra traduzida por "nações" aponta para os povos, os grupos humanos com língua e cultura próprias, não apenas para países com fronteiras no mapa. A promessa feita a Abraão, em Gênesis 12.3, já dizia que nele seriam benditas "todas as famílias da terra". A Grande Comissão é o cumprimento progressivo dessa promessa.

Em Apocalipse 7.9, João vê "grande multidão" de "toda nação, tribo, povo e língua" diante do trono. A missão da igreja caminha, portanto, rumo a um destino já anunciado. Isso protege contra dois erros: achar que o evangelho é cultura de um só povo, e achar que a missão é um projeto humano incerto. Ela é obra de Deus, e a igreja participa dela.

Por que não podemos esquecer o Espírito Santo?

Jesus mandou os discípulos esperarem antes de sair. Em Atos 1.8 ele diz: "recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas". A missão não depende de eloquência, método ou carisma pessoal. Quem converte é Deus; quem testemunha é o crente.

Essa distinção livra de dois pesos. O primeiro é a pressão de convencer: o resultado não está nas nossas mãos. O segundo é a desculpa de não falar: Deus usa meios, e o meio ordinário de salvar pecadores é a palavra anunciada (Romanos 10.14-17). Quem é fiel anuncia; quem salva é o Senhor.

Como a Grande Comissão não deve ser entendida?

Vale dizer o que o texto não autoriza:

  • Não autoriza coação. Discípulos se fazem pelo ensino e pela graça, nunca por pressão, manipulação ou vantagem oferecida.
  • Não é promessa de sucesso. Jesus não garante que todos creiam. Ele mesmo foi rejeitado. Veja o artigo o que fazer quando a pessoa rejeita o evangelho.
  • Não substitui a vida cristã comum. Servir, cuidar dos necessitados e viver com integridade fazem parte do testemunho. O serviço da diaconia é uma expressão visível do evangelho, mas não toma o lugar do anúncio.
  • Não se reduz a programas. Campanhas e eventos podem ajudar, mas a base é a igreja que prega, ora, batiza, ensina e vive em comunhão.

Como a igreja reformada entende essa missão?

A tradição reformada, da qual a Igreja Presbiteriana do Brasil faz parte, entende a missão como obra de Deus antes de ser obra da igreja. O Pai envia o Filho, o Pai e o Filho enviam o Espírito, e o Deus que envia chama a igreja para participar. A Confissão de Fé de Westminster afirma que Cristo, pela sua Palavra e Espírito, chama e reúne para si, do mundo, os seus eleitos; o evangelho deve ser pregado a todos, e a salvação é obra da graça.

Isso se liga à eleição, a escolha soberana de Deus de salvar pecadores por sua boa vontade (Efésios 1.4-5). Jesus diz que tem "outras ovelhas" que também precisa trazer, e que elas ouvirão a sua voz (João 10.16). A pregação é o meio que Deus ordenou para chamá-las, e o Espírito dá eficácia a ela. Cristãos de outras tradições, como os arminianos, entendem a relação entre a escolha divina e a resposta humana de modo diferente, mas todos concordam que a missão é ordem de Cristo.

Isso produz uma missão ao mesmo tempo confiante e humilde: confiante, porque o Senhor reina e cumprirá o seu propósito; humilde, porque somos instrumentos, não autores da conversão. Quem entende isso não precisa de técnica agressiva nem se paralisa de medo.

Por onde começar na prática?

Para quem quer levar a Comissão a sério sem saber o primeiro passo:

  • Ouça a Palavra com regularidade, porque só testemunha bem quem conhece aquilo que anuncia. Os cultos e a pregação expositiva servem a isso.
  • Ore por pessoas concretas ao seu redor, pelo nome.
  • Viva de forma coerente: o testemunho da vida acompanha o da boca.
  • Fale quando houver oportunidade, com simplicidade e respeito.
  • Pergunte à igreja como participar do que ela já faz em evangelização, missões e serviço. Cada igreja tem uma realidade própria, e o caminho é procurar a liderança para saber o que existe hoje e onde há necessidade.

Perguntas frequentes

Onde está a Grande Comissão na Bíblia?

O texto principal é Mateus 28.18-20. Textos paralelos aparecem em Marcos 16.15, Lucas 24.46-49, João 20.21 e Atos 1.8. Cada um destaca um aspecto diferente da mesma missão.

A Grande Comissão vale para todo cristão ou só para pastores e missionários?

A missão foi dada à igreja como um todo. Nem todos são chamados a pregar publicamente ou a cruzar fronteiras, mas todos têm parte: orar, contribuir, testemunhar e servir. A forma varia conforme o chamado e os dons de cada um.

Qual a diferença entre Grande Comissão e evangelismo?

Evangelismo é o anúncio do evangelho. A Grande Comissão é mais ampla: inclui anunciar, batizar e ensinar, ou seja, fazer discípulos e conduzi-los na vida da igreja. O evangelismo é o início desse processo, não o fim.

Preciso ser perfeito para cumprir a Grande Comissão?

Não. Os próprios discípulos que receberam a ordem eram falhos, e alguns ainda duvidavam (Mateus 28.17). A promessa de Jesus de estar presente todos os dias é o que sustenta a missão, e não a perfeição de quem a cumpre.