Filhos que se afastaram da igreja — o que os pais podem fazer

Filhos que se afastaram da igreja não estão fora do cuidado de Deus. Veja como pais podem agir com amor, oração e paciência, sem culpa nem pressão.

Igreja Presbiteriana Pioneira · leitura de 7 min

Filhos que se afastaram da igreja são uma das dores mais silenciosas de pais cristãos. Se é o seu caso, saiba duas coisas: você não está sozinho, e a história não acabou. O que os pais podem fazer é manter o amor e a porta abertos, ouvir sem sermões, orar com perseverança, viver o evangelho em casa e confiar o filho a Deus, que é quem converte. Não cabe aos pais produzir a fé, e culpar-se por completo é um peso que a Bíblia não coloca sobre eles.

Por que os filhos se afastam?

Os motivos são muitos, e nem sempre são os que os pais imaginam:

  • Dúvidas intelectuais que nunca foram bem recebidas.
  • Feridas na igreja, como hipocrisia, fofoca, abuso, injustiça ou desprezo.
  • Feridas em casa, como duplicidade entre o que se prega e o que se vive.
  • Estilo de vida em que o filho quer algo que a fé contraria.
  • Influência de amigos, namoro, faculdade ou trabalho.
  • Sofrimento e luto que o fizeram duvidar de Deus.
  • Cansaço de ser "o filho do pastor ou do presbítero", ou o filho exemplar.
  • Depressão ou ansiedade, que esfriam a fé e a vontade de tudo.

Entender o motivo ajuda a escolher a resposta. Se há abuso por parte de alguém da igreja, por exemplo, o primeiro passo é escutar, proteger e levar o assunto às lideranças e, quando houver crime, às autoridades.

O que a Bíblia diz sobre filhos que se afastam?

A narrativa clássica é a parábola do filho pródigo (Lucas 15.11-32). O filho pede a herança, vai embora, desperdiça tudo, e depois volta. O pai, enquanto o filho "ainda estava longe", o viu, "compadeceu-se dele" e correu a abraçá-lo (v. 20). Três observações:

  1. O pai deixou o filho ir. Não o amarrou.
  2. O pai continuou olhando para a estrada. Esperança ativa.
  3. O pai recebeu sem humilhar. Nada de "eu avisei".

Há outros textos de consolo. O Salmo 139 lembra que Deus acompanha os seus em qualquer lugar. O Senhor Jesus, o bom pastor, vai atrás da ovelha perdida (Lucas 15.4). A conversão é obra de Deus: "A graça de Deus vos salvou, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus" (Efésios 2.8).

Também precisamos ser honestos: a Bíblia mostra pais piedosos com filhos rebeldes, como o sacerdote Eli e o próprio Davi com Absalão. Provérbios 22.6 ("Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando velho, não se desviará dele") é um princípio geral de sabedoria, não uma garantia absoluta, e não deve ser usado para condenar os pais.

O que a doutrina reformada oferece a pais nessa dor

A tradição reformada tem consolos específicos para esse sofrimento, e vale dizê-los com clareza.

A soberania de Deus. Nada escapa ao governo do Senhor, nem o caminho do seu filho. "Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus" (Romanos 8.28) não diz que tudo é bom, e sim que Deus conduz até o mal para o bem de seu povo. José pôde dizer aos irmãos: "vós intentastes mal contra mim, porém Deus o tornou em bem" (Gênesis 50.20).

A graça eficaz. Ninguém, nem os pais mais zelosos, pode converter um filho. Mas Deus pode, e o faz quando e como quer: "O Espírito sopra onde quer" (João 3.8). Paulo, perseguidor da igreja, foi alcançado a caminho de Damasco (Atos 9). O que parece impossível aos pais não é impossível a Deus.

A teologia do pacto. O filho foi inserido na comunidade da aliança e foi alvo de promessas (Atos 2.39). Se foi batizado quando criança, o sinal permanece como lembrança de que Deus prometeu e de que os pais assumiram compromisso. O batismo não garante a conversão, como explicamos em por que batizamos filhos de crentes, mas o Deus da aliança é fiel, e há muitos casos de filhos que voltaram depois de anos.

A perseverança dos santos. Quem pertence verdadeiramente a Cristo é guardado até o fim: "ninguém as arrebatará da minha mão" (João 10.28). Isso quer dizer que, se o seu filho é de Deus, ele não se perderá de forma definitiva, mesmo que passe anos longe. Mas a Escritura também exige honestidade: há os que se afastam e nunca voltam, e só Deus conhece quem são os seus (2 Timóteo 2.19). Não cabe a nós decidir. Cabe orar, amar e permanecer à porta.

Essas doutrinas não são frieza; são consolo. Elas dizem que o destino do seu filho está nas mãos de um Pai que o ama mais do que você.

O que os pais podem fazer?

  1. Manter a relação. Continue convidando para a mesa, o aniversário, a conversa. Seu amor não depende da fé dele.
  2. Ouvir mais do que falar. Pergunte "o que aconteceu?" e escute de verdade.
  3. Pedir perdão pelo que errou. Se você foi duro demais, ausente ou incoerente, reconheça.
  4. Evitar ultimatos e chantagens emocionais, como "você vai matar sua mãe de desgosto".
  5. Evitar sermões em todo encontro. Seja quem ama primeiro, mensageiro depois.
  6. Orar com perseverança, em secreto e na igreja. Veja o ensino de Jesus sobre insistir na oração (Lucas 18.1).
  7. Viver o evangelho com alegria, não com amargura.
  8. Pedir ajuda ao pastor e a amigos maduros.
  9. Cuidar de si. Você também precisa de descanso e consolo. Veja pais exaustos, descanso e graça.

O que evitar?

Evite Por quê
Culpar-se totalmente Deus é quem converte; ninguém cria filhos perfeitos
Culpar o filho como um pecador exclusivo Todos precisamos de graça
Comparar com irmãos ou primos Magoa e afasta
Expor o filho à igreja como "o problema" Humilha
Cortar o vínculo para "dar uma lição" Isola e fere
Desistir de orar A oração é o recurso que sempre temos

E se meu filho sofre ou é perigoso para si mesmo?

Afastamento da fé às vezes vem junto de depressão, vícios ou situações de risco. Se há risco de vida, automutilação, uso pesado de drogas ou violência, procure ajuda profissional e serviços de emergência com urgência, e avise o pastor. Cuidar da vida e da saúde vem antes de qualquer conversa sobre igreja.

E o que a igreja pode fazer?

A comunidade pode orar, acolher a família, continuar tratando o jovem com carinho quando ele aparecer, sem cobranças nem fofocas. Se o jovem foi batizado quando criança, a igreja continua responsável por orar por ele e, se ele quiser conversar, ouvir. Sobre esse sinal, veja por que batizamos filhos de crentes. Para falar com o pastor, use o fale conosco.

Como esperar sem desesperar?

Esperar é difícil. Alguns apoios:

  • Lembre-se de que Deus ama seu filho mais do que você.
  • Recorra aos Salmos de lamento, como o 13 e o 42, que dão voz à angústia.
  • Procure outros pais na mesma situação.
  • Registre sinais de graça, por pequenos que sejam.
  • Confie nas promessas de Deus sem pressupor datas e formas.

Muitos jovens voltam, de modos diferentes e em tempos diversos. Outros demoram. A Bíblia não promete que todos voltem em determinado prazo, mas promete que Deus não despreza o clamor dos pais.

Perguntas frequentes

A culpa é minha por meu filho ter se afastado?

Em parte, todo pai e toda mãe erra. Mas a fé é dom de Deus, e há filhos criados com muito cuidado que se afastam. Reconheça o que errou, peça perdão e não carregue uma culpa que a Bíblia não impõe.

Devo insistir para meu filho voltar à igreja?

Convide com amor, sem pressionar. Insistência agressiva costuma afastar mais. Ore, mantenha a porta aberta e viva a fé com alegria.

Meu filho diz que não acredita em Deus. O que respondo?

Escute, pergunte o motivo e evite debates acalorados. Mostre que seu amor continua. Se ele quiser, apresente-o a alguém maduro para conversar, como o pastor.

Meu filho foi batizado. Ele está perdido se se afastar?

Só Deus conhece os corações. O batismo é sinal das promessas, e os pais continuam orando. Se ele se arrepender e crer, Deus o recebe.

Como lidar com a vergonha diante da igreja?

Fale com o pastor e com amigos de confiança. Uma igreja saudável acolhe pais assim, e não os julga.