Cristão e entretenimento — filmes, séries e jogos
Cristão e entretenimento — como escolher filmes, séries, músicas e jogos com sabedoria, sem legalismo e sem se deixar moldar pelo que consome.
Igreja Presbiteriana Pioneira · leitura de 6 min
O cristão e o entretenimento podem se dar bem, desde que haja discernimento. A Bíblia não traz lista de filmes, séries ou jogos permitidos e proibidos. Ela dá princípios: o que enche a mente forma o coração (Filipenses 4.8), nada deve nos dominar (1 Coríntios 6.12), devemos cuidar do irmão mais fraco (Romanos 14) e fazer tudo para a glória de Deus (1 Coríntios 10.31). Descanso e alegria são dádivas de Deus; o problema está em o que consumimos, quanto e com que coração.
O lazer é bom?
Sim. Deus mesmo descansou no sétimo dia (Gênesis 2.2-3) e instituiu o sábado, dia de repouso, como bênção (Êxodo 20.8-11; Marcos 2.27). Eclesiastes 3.4 reconhece "tempo de rir" e "tempo de dançar". Jesus participou de festas, como as bodas de Caná (João 2). A alegria é boa: "Todo bom dom e todo dom perfeito vêm do alto" (Tiago 1.17).
A tradição reformada defende que a cultura e a arte são expressão da capacidade criativa dada por Deus ao ser humano, que carrega a sua imagem. Isso vale para música, literatura, cinema e também para esportes e jogos. Mesmo artistas não cristãos podem produzir beleza e verdade, o que a teologia chama de graça comum, a bondade de Deus distribuída a todos.
Portanto, a postura básica não é medo, é gratidão com vigilância.
O que a Bíblia pede de quem consome cultura?
1. Cuide do que entra pela mente
Filipenses 4.8: "Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento." Não é lista para ficar só com histórias "bonitinhas"; muitas obras tratam de dor, injustiça e pecado de modo que conduz à verdade. O critério é o que aquilo faz comigo e o que ele celebra.
Salmo 101.3: "Não porei coisa injusta diante dos meus olhos." E Jó 31.1 fala de fazer um pacto com os olhos. Pecados de impureza, violência gratuita e zombaria da justiça não são inofensivos só porque são "ficção".
2. Não se deixe dominar
"Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm; todas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma" (1 Coríntios 6.12). Um jogo, uma série ou o hábito de maratonar pode virar dependência. O sinal é quando ele toma o lugar de sono, família, trabalho, oração ou culto, e quando é difícil parar.
3. Considere o irmão
Romanos 14 e 1 Coríntios 8 e 10 ensinam que algumas questões são de consciência e que não devemos desprezar quem pensa diferente nem fazê-lo tropeçar. Um cristão pode ter liberdade para assistir algo que outro evita, e vice-versa. Nenhum dos dois deve julgar o outro. Veja como lidar com quem pensa diferente.
4. Faça tudo para a glória de Deus
"Quer comais, quer bebais, quer façais outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus" (1 Coríntios 10.31). Isso inclui o lazer. Não significa que tudo precisa ser religioso, mas que nada fica fora do senhorio de Cristo.
Perguntas úteis antes de assistir ou jogar
- O que esta obra celebra? O pecado é tratado como bom, normal e engraçado?
- Ela me forma de que modo? Me deixa mais ansioso, impuro, cínico, irritado, ou me ajuda a ver a realidade?
- Eu consigo ouvir a mensagem dela sem ser capturado por ela?
- Estou dominado por esse hábito? Quanto tempo gasto? O que deixo de fazer?
- Há alguém ao meu lado (filhos, cônjuge, amigos) que seria prejudicado?
- Eu faria isso em companhia de Cristo? A pergunta soa dura, mas ele está em todo lugar, por isso o Salmo 139.
E as crianças e adolescentes?
Pais devem acompanhar o que os filhos consomem, sem terror e sem negligência. Deuteronômio 6.6-7 fala de ensinar a Palavra em todos os momentos da vida. Algumas práticas:
- Conhecer o conteúdo antes de liberar. Classificação indicativa ajuda, mas não substitui o julgamento dos pais.
- Assistir e jogar junto, para conversar sobre a história e seus valores.
- Estabelecer horários e momentos sem tela, como no jantar e à noite.
- Dar o exemplo, porque a criança imita o que vê os pais fazerem.
- Oferecer alternativas atraentes: esportes, leitura, música, convívio com outras famílias.
Jogos eletrônicos
O jogo é, em si, uma atividade de lazer, como outras. Alguns cuidados: conteúdo violento ou sexual, microtransações que exploram o impulso de gastar, interações online com desconhecidos, e o risco de tempo excessivo. Para tempo e produtividade com propósito vale ver os critérios de mordomia do tempo, e para consumo que alimenta compulsão, cristão e consumo.
E a música e a arte?
A música tem lugar importante na Bíblia, do livro dos Salmos aos cânticos de Apocalipse. Há música cristã e música comum. Os mesmos critérios valem: a letra, o estado de ânimo que provoca, o contexto. Colossenses 3.16 fala de louvar a Deus com salmos, hinos e cânticos espirituais; isso não proíbe ouvir outras músicas, mas indica o que deve formar o coração em primeiro lugar.
Legalismo e libertinagem
Dois erros:
- Legalismo: criar lista de proibições que a Bíblia não faz e tratá-la como medida de santidade. Colossenses 2.20-23 adverte contra regras humanas que têm "aparência de sabedoria" mas não contêm o pecado.
- Libertinagem: usar a liberdade em Cristo como pretexto para consumir qualquer coisa sem exame (Gálatas 5.13; 1 Pedro 2.16).
A saída é a liberdade responsável: coração formado pela Palavra, consciência treinada e conselho de irmãos maduros. Em dúvida, converse com o pastor ou com pessoas experientes da igreja; veja /#fale.
Quanto tempo é demais?
Não há um número mágico. Observe o fruto: se o entretenimento rouba o culto, a leitura bíblica, o descanso, a família ou o trabalho, é excesso. Se te deixa mais cansado, irritado ou vazio do que antes, também. Descanso verdadeiro refaz; consumo compulsivo esgota.
A tradição reformada gosta de lembrar que não há área neutra: o lazer também está sob o senhorio de Cristo, e tudo se faz Soli Deo Gloria (1 Coríntios 10.31). Isso não significa transformar cada hora em estudo bíblico, mas viver o descanso com gratidão e consciência. A graça comum explica por que há beleza, humor e verdade nas obras de quem não crê, e a depravação total explica por que mesmo as melhores obras trazem distorções. Entre os dois pontos, o cristão avalia, aproveita e rejeita com discernimento, sempre em comunhão com a igreja, que o ajuda a perceber o que sozinho não enxerga.
Perguntas frequentes
Cristão pode ver filmes e séries?
Pode. A Bíblia não proíbe, mas pede discernimento sobre o conteúdo, o que ele celebra, o efeito sobre o coração e o tempo gasto. Cada crente deve examinar sua consciência à luz das Escrituras.
Videogame é pecado?
Não em si. Pode ser lazer legítimo. Torna-se problema quando domina a pessoa, toma o lugar de deveres e relacionamentos, expõe a conteúdo impuro ou violento, ou leva a gastos compulsivos.
Como escolher o que assistir?
Pergunte o que a obra celebra, como ela me forma, se estou dominado pelo hábito e quem mais pode ser afetado. Filipenses 4.8 oferece um bom critério de conteúdo.
Cristão deve só consumir conteúdo cristão?
Não é necessário. A arte e a cultura em geral podem trazer beleza e verdade, pela graça comum. O que se exige é discernimento para separar o que edifica do que corrompe.