O cristão e a cidade — como amar o lugar onde vive
O cristão e a cidade — o que Jeremias 29.7 ensina sobre buscar o bem do lugar onde Deus nos pôs, e como servir vizinhos, bairro e comunidade com fé.
Igreja Presbiteriana Pioneira · leitura de 6 min
O cristão e a cidade estão ligados por uma ordem que Deus deu a exilados em Babilônia: "Procurai a paz da cidade para onde vos desterrei, e orai por ela ao Senhor, porque na sua paz vós tereis paz" (Jeremias 29.7). Se isso valeu para um povo deportado numa cidade pagã, vale ainda mais para quem vive onde Deus o colocou. O cristão não é chamado a desprezar a cidade, a se isolar dela ou a dominá-la, mas a amá-la: orar por ela, trabalhar nela, servir seus vizinhos e buscar o seu bem, como quem sabe que mora ali por providência de Deus.
Por que Deus me pôs neste lugar?
A providência é a doutrina reformada de que Deus governa todas as coisas, inclusive o lugar e o tempo em que vivemos. Paulo diz em Atos 17.26 que Deus "determinou os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação". Isso significa que a sua cidade, o seu bairro e a sua rua não são acaso: fazem parte do chamado. A Confissão de Westminster ensina que Deus dirige todas as coisas conforme a sua sabedoria e para a sua glória.
Isso muda o olhar. Quem se sente deslocado, num lugar que não escolheu, pode perguntar: "O que Deus quer que eu faça aqui?" É a mesma pergunta do exílio. Muitos brasilienses, aliás, vieram de outros estados e carregam saudade; a Bíblia reconhece a experiência de ser "peregrino" e ensina a plantar raízes sem esquecer a pátria definitiva (Hebreus 11.13-16).
O que Jeremias 29 realmente ensina?
A carta de Jeremias foi escrita a judeus levados cativos à Babilônia. Falsos profetas diziam que o exílio seria curto e que não valia a pena se acomodar. Deus manda o contrário: "Edificai casas e habitai-as; plantai pomares e comei o seu fruto; tomai mulheres e gerai filhos [...] e procurai a paz da cidade" (Jeremias 29.5-7).
Alguns pontos:
- Viver de verdade, sem esperar uma situação ideal para começar.
- Trabalhar, construir, plantar, ter família.
- Buscar o bem da cidade, em vez de só reclamar dela.
- Orar pela cidade, mesmo ela sendo pagã.
- Manter a esperança de que Deus cumpriria sua promessa (29.10-11).
É a postura de quem é "estrangeiro e peregrino" (1 Pedro 2.11) e, ao mesmo tempo, bom cidadão (1 Pedro 2.12). Não há contradição: a lealdade final é de Cristo, e justamente por isso se serve bem aqui.
Como amar concretamente a cidade?
1. Ore por ela
1 Timóteo 2.1-2 pede orações por todos os homens e por quem exerce autoridade. Ore por prefeitos, vereadores, escolas, hospitais, bairros e vizinhos, nominalmente, sem escolher partido. Veja o cristão e a política.
2. Trabalhe bem
O trabalho honesto é uma contribuição para a cidade. O padeiro, o motorista e o professor são instrumentos de Deus para o bem comum. Veja fé e trabalho.
3. Conheça os vizinhos
Jesus resumiu a lei em amar o próximo (Mateus 22.39), e o bom samaritano mostrou que próximo é quem está no caminho (Lucas 10). Conhecer o nome de quem mora ao lado, cumprimentar, oferecer ajuda, convidar para uma refeição: é obediência simples e poderosa. Hebreus 13.2 fala da hospitalidade.
4. Cuide dos mais frágeis
Idosos sozinhos, famílias em dificuldade, migrantes recém-chegados, crianças em situação de risco. Veja o que a Bíblia diz sobre o pobre e o estrangeiro e justiça social e evangelho.
5. Cumpra suas responsabilidades cívicas
Pagar impostos, respeitar leis justas, votar com consciência, participar de associações e reuniões comunitárias (Romanos 13.1-7). Quem reclama da cidade e nada faz por ela esquece Jeremias 29.7.
6. Cuide do espaço comum
Limpeza, segurança, conservação das áreas públicas. Gênesis 2.15 ensina a cultivar e guardar a criação; isso vale para a praça tanto quanto para o jardim.
7. Valorize a cultura e a história local
A graça comum, a bondade que Deus dá a todos, produz beleza, arte, tradições e instituições boas em todas as cidades, inclusive entre quem não crê. Reconhecê-las é gratidão, não concessão. Ao mesmo tempo, o cristão avalia tudo à luz da Escritura, sem romantizar o que contradiz a verdade de Deus.
8. Compartilhe o evangelho
Amar a cidade inclui desejar a salvação dos seus moradores. Isso se faz com palavras e vida, e com mansidão. Veja como conversar sobre fé sem brigar. A igreja local é parte dessa missão, pregando a Palavra e acolhendo quem chega. Os horários estão em /#cultos.
E se a cidade parece perdida?
Há cidades marcadas por corrupção, violência e indiferença. O cristão sabe que o coração humano é pecador (depravação total), e por isso não espera da cidade o que só Cristo dá. Mas também sabe que Deus governa e usa os seus como sal e luz (Mateus 5.13-16). Jonas foi enviado a Nínive, uma cidade violenta; Deus a tratou com compaixão (Jonas 4.11).
A tentação é a desistência cínica ou a fuga para um gueto cristão. A outra tentação é a ingenuidade de achar que a cidade será salva por um programa. O caminho bíblico é a fidelidade paciente, no pequeno e no local.
E a cidade final?
A Bíblia termina com uma cidade: a Nova Jerusalém, que desce do céu, da parte de Deus (Apocalipse 21.2). Abraão "esperava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e construtor" (Hebreus 11.10). Isso dá perspectiva: amamos esta cidade sem confundi-la com a definitiva. Nenhuma obra humana, por melhor, é a consumação; Deus fará novas todas as coisas. Veja esperança cristã diante de um mundo caótico.
Brasília e o Núcleo Bandeirante
Cidades planejadas ou antigas, grandes ou pequenas, todas são lugares onde Deus pôs pessoas. A igreja local, estando num bairro, tem a oportunidade de ser vizinha da comunidade: conhecer, orar e servir. Se você mora aqui perto e quer conhecer a igreja, veja /#visita.
Por fim, uma observação reformada: a soberania de Deus nos livra tanto do desespero quanto da arrogância. Do desespero, porque a cidade, com todos os seus problemas, está sob o governo do Senhor. Da arrogância, porque quem transforma corações é ele, não os nossos projetos. Isso nos permite servir sem a ansiedade de quem precisa "salvar" o lugar, e com a alegria de quem participa, em pequena escala, do cuidado de Deus pelo mundo. Tudo Soli Deo Gloria, para a glória do Senhor, e sem área neutra: a rua, o comércio, a escola e a praça também são lugares de serviço a Cristo.
Perguntas frequentes
O que significa buscar a paz da cidade?
É procurar o bem, a justiça e o bem-estar de onde se vive, por meio de oração, trabalho honesto, serviço aos vizinhos e participação responsável. É o que Deus pediu aos exilados em Jeremias 29.7.
Cristão deve se envolver com a comunidade?
Deve. Como cidadão e vizinho, o cristão serve, colabora e contribui, sem perder sua identidade. A igreja local, sendo parte do bairro, pode ser fonte de bênção.
E se eu não gosto da cidade onde moro?
Muitos passam por isso. Peça a Deus para amar o lugar, procure vínculos, sirva e plante raízes. Se for oportuno mudar, faça-o com oração e conselho. Em qualquer caso, enquanto está lá, busque o bem do lugar.
Cristão é cidadão do céu. Por que se importar com a cidade?
Porque Deus nos chamou a amar o próximo e nos colocou aqui. Ser cidadão do céu (Filipenses 3.20) não elimina deveres na terra, mas lhes dá sentido e esperança. É quem espera a cidade eterna que serve melhor a atual.